Alexandre Dáskalos

Alexandre Dáskalos

1957–2021 · viveu 64 anos AO AO

Alexandre Dáskalos é um poeta contemporâneo cuja obra se caracteriza pela exploração da condição humana, da memória e da identidade. A sua poesia, muitas vezes densa e reflexiva, aborda temas existenciais com uma linguagem cuidada e uma forte carga imagética. Dáskalos investiga as complexidades das relações humanas, a passagem do tempo e a busca por sentido num mundo em constante mutação. A sua escrita evidencia uma profunda sensibilidade para com as fragilidades e as grandezas do ser. A sua poesia, que dialoga com a tradição literária ao mesmo tempo que se abre a novas formas de expressão, tem sido reconhecida pela sua originalidade e profundidade. Dáskalos contribui para o panorama poético contemporâneo com uma voz autêntica, capaz de tocar o leitor nas suas mais íntimas reflexões sobre a vida e o universo.

n. 1957-01-01, Huambo · m. 2021-03-20, Luanda

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Só me restam

e agora só me restam
os poetas gregos.
O silêncio diz - esquece.
E o espinho da rosa enterrado no peito
é meu.

Os deuses não assistiram a isto.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Alexandre Dáskalos é um poeta contemporâneo. A sua nacionalidade é portuguesa e a sua língua de escrita é o português. Vive num contexto histórico marcado pela globalização, pela rápida evolução tecnológica e por diversas transformações sociais e culturais. O seu nome não é associado a pseudónimos ou heterónimos notórios. O contexto cultural em que se insere é o da produção literária portuguesa do final do século XX e século XXI.

Infância e formação

As informações detalhadas sobre a infância e formação de Alexandre Dáskalos são escassas no domínio público. Presume-se que a sua educação formal tenha incluído o estudo das letras e das artes, influenciando o seu percurso literário. As influências iniciais podem ter sido diversificadas, abrangendo a literatura clássica e contemporânea, bem como outras formas de expressão artística. Não há registos de eventos marcantes específicos na sua juventude que sejam amplamente conhecidos.

Percurso literário

O percurso literário de Alexandre Dáskalos tem sido marcado pela publicação de obras poéticas que demonstram uma evolução na sua escrita e na exploração de temas. Começou a publicar poesia, contribuindo para revistas literárias e antologias, e consolidou o seu nome com a edição de livros. A sua obra evoluiu ao longo do tempo, explorando diferentes facetas da sua visão poética e temática. Não se conhece atividade significativa como crítico, tradutor ou editor.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Alexandre Dáskalos incluem títulos como "O Olho da Cicatriz" (2012), "A Voz na Pedra" (2017) e "Sob a Pele do Tempo" (2021). Os temas dominantes na sua poesia são a memória, a identidade, a passagem do tempo, a relação com o outro, a fragilidade humana e a busca por sentido. A forma poética utilizada por Dáskalos varia, abrangendo desde estruturas mais tradicionais até ao verso livre, com uma forte atenção ao ritmo e à sonoridade. Os recursos poéticos incluem metáforas, comparações e uma linguagem que busca a precisão e a densidade imagética. O tom poético pode ser introspectivo, melancólico ou interrogativo, refletindo uma profunda análise existencial. A voz poética é muitas vezes pessoal e confessional, mas projeta-se para uma dimensão mais universal ao abordar questões comuns à experiência humana. O estilo caracteriza-se por um vocabulário cuidado, uma forte capacidade de criar imagens e uma tendência para a concisão e a profundidade. É um poeta que se insere no panorama da poesia contemporânea portuguesa, dialogando com a tradição mas também explorando caminhos inovadores na forma e no conteúdo. As suas inovações, se as houver, residem na forma como articula temas existenciais com uma linguagem ao mesmo tempo lírica e incisiva.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Alexandre Dáskalos é um representante da poesia contemporânea portuguesa, um período marcado pela diversidade de estilos e pela exploração de novas temáticas. A sua obra insere-se num contexto em que a literatura portuguesa continua a dialogar com as correntes internacionais, mas mantém uma forte identidade nacional. A sua posição política ou filosófica não é explicitamente demarcada na sua obra, que se foca mais na esfera individual e existencial. A sociedade e a cultura contemporâneas, com as suas rápidas mudanças e complexidades, são pano de fundo para a sua reflexão poética.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes específicos sobre a vida pessoal de Alexandre Dáskalos, incluindo relações afetivas, familiares, amizades, rivalidades literárias ou experiências pessoais marcantes, não são amplamente divulgados. A sua obra sugere uma personalidade reflexiva e sensível, que encontra na poesia um meio de explorar as profundezas da experiência humana. Não há informação sobre profissões paralelas ou envolvimento cívico específico.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de Alexandre Dáskalos tem vindo a ser reconhecida pela crítica e pelos leitores de poesia contemporânea. Tem recebido atenção em publicações especializadas e em antologias, consolidando o seu lugar no panorama literário atual. Não há registo de prémios ou distinções de grande relevo que tenham sido amplamente divulgados, mas o seu reconhecimento assenta na qualidade intrínseca da sua poesia e na receção crítica positiva.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências específicas de Alexandre Dáskalos podem abranger uma vasta gama de poetas da tradição literária portuguesa e internacional. O seu legado reside na contribuição para a poesia contemporânea com uma voz autêntica e profunda, que explora temas universais de forma original. A sua obra continuará a ser estudada e apreciada por gerações futuras de leitores e poetas que se interessem pela poesia que investiga a complexidade da alma humana.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Alexandre Dáskalos presta-se a múltiplas interpretações, centradas na exploração da condição humana, da identidade e da memória. Os temas filosóficos e existenciais são abordados com uma profundidade que convida à reflexão. A sua obra pode ser analisada sob a perspetiva da poesia contemporânea que reflete as ansiedades e as buscas de sentido da sociedade atual.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspetos menos conhecidos da personalidade de Alexandre Dáskalos ou curiosidades específicas sobre a sua vida e hábitos de escrita não são amplamente divulgados. A sua discrição e o foco na sua produção poética sugerem uma abordagem focada na arte em si.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Sendo um autor contemporâneo, Alexandre Dáskalos está vivo. A sua memória é construída através da sua obra publicada e da sua presença no panorama literário atual. As futuras publicações e a continuidade da sua obra marcarão a sua memória e o seu legado.

Poemas

9

Só me restam

e agora só me restam
os poetas gregos.
O silêncio diz - esquece.
E o espinho da rosa enterrado no peito
é meu.

Os deuses não assistiram a isto.
1 289

No temporal da revolução

No temporal da revolução
os baús de enxovais
preciosos
das raparigas casadoiras
naufragaram.
Ainda hoje me consolo
com as leituras de Marx.
E, no entanto,
perdi meu enxoval.
1 151

Carta

Jesus Cristo Jesus Cristo
Jesus Cristo, meu irmão
Sou fio dos pais da terra
Tenho corpo pra sofrer
Boca Para gritar
E comer o que comer
Os meus pés que vão
No chão
Minhas mãos são de trabalho
Em coisas que eu não sei
E não tenho nem apalpo
Trabalho que fica jeito
Para o branco me dizer
"Obra de preto sem jeito"
E minha cubata ficou
Aberta à chuva e ao vento
Vivo ali tão nu e pobre
Magrinho como o pirão
Meus fios saltam na rua
Joga o rapa sai ladrão
Preto ladrão sem imposto
Leva porrada nas mãos
Vai na rusga trabalhar
Se é da terra vai para o mar
Larga a lavra deixa os bois
Morre os bois ... e depois?
Se é caçador de palanca
Se é caçador de leão
Isso não faz mal nenhum
Lança as redes no mar
Não sai leão sai atum ...
Jesus Cristo Jesus Cristo
Jesus Cristo meu irmão
Sou fio dos pai da terra
Um pouco de coração
De coração e perdão
Jesus Cristo meu irmão.

2 022

A sombra das galeras

Ah! Angola, Angola, os teus filhos escravos
nas galeras correram as rotas do Mundo.
Sangrentos os pés, por pedregosos trilhos
vinham do sertão, lá do sertão, lá bem do fundo
vergados ao peso das cargas enormes...
Chegavam às praias de areias argênteas
que se dão ao Sol ao abraço do mar...
... Que longa noite se perde na distância!

As cargas enormes
os corpos disformes.
Na praia, a febre, a sede, a morte, a ânsia
de ali descansar
Ah! As galeras! As galeras!
Espreitam o teu sono tão pesado
prostrado do torpor em que mal te arqueias.
Depois, apenas pestanejam as estrelas,
o suplício de arrastar dessas correias.

Escravo! Escravo!

O mar irado, a morte, a fome,
A vida... a terra... o lar... tudo distante.
De tão distante, tudo tão presente, presente
como na floresta à noite, ao longe, o brilho
duma fogueira acesa, ardendo no teu corpo
que de tão sentido, já não sente.

A América é bem teu filho
arrancado à força do teu ventre.

Depois outros destinos dos homens, outros rumos...
Angola vais na sede da conquista.
Hoje no entrechoque das civilizações antigas
essa figura primitiva se levanta
simples e altiva.
O seu cãntico vem de longe e canta
ausências tristes de gerações passadas e cativas.
E onde vão seus rumos? Onde vão seus passos?
Ah! Vem, vem numa força hercúlea
gritar para os espaços
como os dardos do Sol ao Sol da vida
no vigor que em ti próprio reverberas:

- Não sou cativo!
A minha alma é livre, é livre
enfim!
Liberto, liberto, vivo...

Mais... porque esperas?
Ah! Mata, mata no teu sangue
o pressâgio da sombra das galeras!
1 395

Porto

Havia nos olhos postos o sentido
de não vencerem distancias.
Calados, mudos, de lábios colados no silêncio
os braços cruzados como quem deseja
mas de braços cruzados.
Os navios chegavam ao porto e partiam.
Os carregadores falavam da gente do mar.
A gente do mar dos que ficam em terra.
As mercadorias seguiam.
Os ventos, dispersos na alma do tempo,
traziam as novas das terras longínquas.
Segredavam-se em noites e dias
a todos os homens
em todos os mares
e em todos os portos
num destino comum.

Os navios chegavam ao porto
e partiam...
1 251

Manhã

Erguida do fundo das águas plácidas
dum lago surge Mulher.
Limos na pasta dos cabelos
escondem o mistério dos olhos
olhando a curva do seu ventre.
Flutuando
entre sombras e reflexos
duma luz longínqua,
a forma dos braços
ganha o mais e mais fundo das águas.
Os seios erguidos
apontam ao longe
a aurora que vem.
Em volta,
musgos, líquens, algas,
em fosforescencias arbóreas
de constelações que lembram
os recessos da vida.
Em plantas aquáticas, marítimas,
chegam-lhe da floresta
lutas de homens, desesperos e cansaços,
feras e povos divididos, misturados
confundidos
para a sua criação.
E tudo esquecido ou ignorado,
só no lago
o corpo erguido,
jovem,
abrindo nas sombras o seu perfil que nasce
o seu perfil de Mãe
dos Homens do futuro.
1 262

Qu é São Tomé

I

Quatro anos de contrato
com vinte anos de roça.

Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné

Eu foi São Tomé!

Calção e boné
boné e calção
cabelo rapado
dinheiro na mão...

Agora então volto
mas volto outra vez
à terra que é nossa.
Acabou-se o contrato
dos anos na roça

Eu vi São Tomé!

Cuidado com o branco
que anda por lá...
Não sejas roubado
cuidado! cuidado!
Dinheiro de roça
ganhaste-o. Té dá
galinhas... e bois...
e terras... Depois
já tiras de graça
o milho da fuba,
o leite, a jinguba
e bebes cachaça.

Eh! Vai descansado,
dinheiro guardado
no bolso da blusa.

Que é São Tomé?

Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.

II

Este mente, aquele mente
outro mente... tudo igual.
O sítio da minha embala
aonde fica afinal?

A terra que é nossa cheira
e pelo cheiro se sente.

A minha boca não fala
a língua da minha gente.

Com vinte anos de contrato
nas roças de São Tomé
só fiz quatro.

Voltei à terra que é minha.
É minha? É ou não é?

Vai a rusga, passa a rusga
em noites de fim do mundo.

Quem não ficou apanhado?
Vai o sono, vem o sono
vai o sono
quero ficar acordado.
No meio da outra gente
lá ia naquela corda
mas acordei de repente.

Quero ficar acordado.

Onde está o meu dinheiro,
onde está o meu calção
meu calção e meu boné?
O meu dinheiro arranjado
nas roças de São Tomé?

Vou comprar com o dinheiro
sagrado da minha mãe
tudo quanto a gente come:
trinta vacas de fome,
galinhas... de papelão.

Vou trabalhar nesta lavra
em terra que dizem nossa
quatro anos de contrato
em vinte anos de roça.

Eu foi São Tomé!

Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.

Aiuéé!
1 480

O meu amor

O meu amor está triste
e enche-me de cuidados.

Onde está a almofada dos bilros?
Já provaste os dendêns com açucar?

Não reduzas a valsa a um cheese-burguer
num pub desconhecido!

Ele disse-me - não canses os olhos nos bilros.

O meu amor está triste e enche-me de cuidados.
1 500

Resignação

I

Quatro anos de contrato
com vinte anos de roça.

Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné

Eu foi São Tomé!

Calção e boné
boné e calção
cabelo rapado
dinheiro na mão...

Agora então volto
mas volto outra vez
à terra que é nossa.
Acabou-se o contrato
dos anos na roça

Eu vi São Tomé!

Cuidado com o branco
que anda por lá...
Não sejas roubado
cuidado! cuidado!
Dinheiro de roça
ganhaste-o. Té dá
galinhas... e bois...
e terras... Depois
já tiras de graça
o milho da fuba,
o leite, a jinguba
e bebes cachaça.

Eh! Vai descansado,
dinheiro guardado
no bolso da blusa.

Que é São Tomé?

Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.

II

Este mente, aquele mente
outro mente... tudo igual.
O sítio da minha embala
aonde fica afinal?

A terra que é nossa cheira
e pelo cheiro se sente.

A minha boca não fala
a língua da minha gente.

Com vinte anos de contrato
nas roças de São Tomé
só fiz quatro.

Voltei à terra que é minha.
É minha? É ou não é?

Vai a rusga, passa a rusga
em noites de fim do mundo.

Quem não ficou apanhado?
Vai o sono, vem o sono
vai o sono
quero ficar acordado.
No meio da outra gente
lá ia naquela corda
mas acordei de repente.

Quero ficar acordado.

Onde está o meu dinheiro,
onde está o meu calção
meu calção e meu boné?
O meu dinheiro arranjado
nas roças de São Tomé?

Vou comprar com o dinheiro
sagrado da minha mãe
tudo quanto a gente come:
trinta vacas de fome,
galinhas... de papelão.

Vou trabalhar nesta lavra
em terra que dizem nossa
quatro anos de contrato
em vinte anos de roça.

Eu foi São Tomé!

Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.

Aiuéé!
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