Lista de Poemas
Da Espera
enquanto perdurar a ronda dos morcegos.
Mas, quando se avizinhar a madrugada,
exigirei
que todas as canções tecidas no silêncio
deixem o verde tímido dos bosques
e povoem de sons as avenidas
para que os homens se alegrem
e conheçam que o mundo é bom.
O Lago das 7 Ihas
há 7 ilhas plantadas
e um mundo verde ao redor.
Em cada ilha uma casa
em cada casa uma virgem
em cada virgem um amor.
No Lago das 7 ilhas
há peixes e tartarugas
e o boto namorador.
Da lama humosa do lago
brotam mil vitórias-régias
- em cada uma uma flor.
No Lago das 7 ilhas,
que guarda o dom encantado
de ser filho do Equador,
há 7 moças bonitas
que vivem nas palafitas
sonhando com seu senhor.
No Lago das 7 ilhas,
somando todas as filhas
do caboclo pescador,
há 7 cunhãs pejadas
de tanto amar a paisagem
e o boto conquistador.
O Ouro do Rio Amana
de repente se toldaram.
Chegaram dragas, pontões,
canoas, motores, balsas
abarrotadas de homens
falando gírias estranhas,
escafandros, pás, bateias,
mecanismos de sucção
a revolver-te as entranhas,
e o teu relevo de margens:
foi decifrado o segredo
do teu rico aluvião.
As cobiças pessoais
precisam catar o ouro
para urgências nacionais.
Cadê teus patos selvagens,
teus amenos inambus,
tangurupará voltando
(segundo registra a lenda)
de lutas com o japiim,
o som rouco das ciganas
a voz dos uirapurus,
o alarido dos guaribas,
os bandos de caititus,
os socós-boi meditando,
jacarés-pedra espiando,
tracajás quase dormindo
na beira, esquentando o sol?
Cadê tuas ariranhas,
tuas antas e capivaras,
teus tambaquis, tuas piranhas
pretas, teus pirarucus,
teus surubins, teus pacus,
araris e pirararas?
Vai, leva ao Parauari
(que também foi descoberto)
teu choro amargo de virgem
possuída sem amor.
Conta que há alto-falantes
espantando os papagaios;
que em cada motor-de-linha
chegam novos garimpeiros;
que as vilas vão-se formando
nas margens, e em cada tenda
há muitas coisas a venda
e mulheres de aluguel
(brancas, louras, que adoecem
por rejeição natural);
que há muito cabra-da-peste
e cenas de faroeste,
cachaça, carne-de-lata,
cigarro, pilha, sardinha,
leite-moça, mosquiteiro,
lanterna, charque do Sul.
Entrega teu ouro, Amana,
quanto mais cedo melhor.
Quero que sejas tão pobre
que nem se lembrem que existes.
Depois do caso passado,
mesmo sabendo que és triste,
quero fazer um roçado,
levantar um tapiri,
deixar o mundo de lado
e morar perto de ti.
Das Águas Grandes
o menino molhado, na porta da frente.
O homem doente
deitado na rede
com os olhos cansados de espanto e de mágoa
de ver tanta água
de ver tanta água
bebendo do sangue, roendo as raízes
de tudo o que fez.
Na estreita maromba,
os bichos chorando de fome e de frio,
com medo do rio
com medo do rio que cresce outra vez.
(Quando eu for Presidente,
de amplos e amorosíssimos poderes,
decretarei,
sem visto do congresso,
nem processo,
canonizando santos nacionais
os mártires da enchente.
Convocarei um exército de anjos
para domar o rio e o desvario
dos prováveis dilúvios anuais.
Mesmo assim, por razões de previdência,
visto que temos mártires demais
e precisamos de gente,
levarei meus irmãos pra terra firme,
onde casa não pode ser navio,
nem se esteja sujeito
às caprichosas emoções do rio.)
o barco passando, e meus olhos sofrendo
da mesma miséria da mesma miséria
que vêem.
E, de repente,
me vem uma vontade provisória
de encher os bolsos de demagogia,
entrar em cada casa com uma estória,
qualquer que seja - que não seja séria,
falar de tudo - menos de miséria,
prometer coisas que não cumprirei,
como se faz em tempo de eleições,
para que sejam menos infelizes
(enquanto o rio esconde as roças podres),
mastigando ilusões.
Trilha Dágua
no início da noite
são como um espelho
que o casco estilhaça
com a força do remo.
Nas margens, a prata
da lua escorrendo
pelas sapucaias,
pelos cajuranas,
pelos tarumãs,
sobre as garças brancas,
sobre as piaçocas,
sobre os jaburus.
Jacaré com filhos
junto à canarana
(se a gente focar
com lanterna boa,
parece cidade
tanta luz brilhando).
Gafanhotos verdes,
tontos de luar,
voando sem rumo
servem de alimento
a peixes notívagos.
Lamparina acesa
lá na cabeceira
marca a palafita.
Cachorro latindo,
gente se agitando,
minha roupa branca,
meu sapato novo,
vou chegar macio,
vou subir sem pressa,
ver a cunhantã.
Estudo I
sempre fui cuidadoso com meu sangue,
aqui vejo-o embeber-se em solo estéril
- sacrifício vazio a um deus extinto.
Gosto de freqüentar esta taberna,
onde me sirvo do meu próprio vinho,
nem perguntam quem sou. Meu companheiro,
que antes cantava e me aplaudia, agora
embuçado em silêncio me observa
como se eu lhe devesse algum milagre.
Na meia-luz da tasca entra uma lua
que inventa novas sombras nas paredes.
Dos meus olhos de espanto e de tristeza
vai caindo um poema sobre a mesa.
Estudo XII
já foi longe demais, e não me encontro.
Há marcas fundas do caminho antigo,
mas não posso sentir, vivo agitado.
Vejo em volta de mim alguns pedaços
do meu ser dividido. E tento, às vezes,
fraco e mesquinho como um delinqüente,
redescobrir a minha identidade.
Impossível voltar, e continuo.
Elaboro miragens e as persigo
com a determinação dos suicidas.
E, passo a passo, cada dia cumpro
a função de votar o que me resta
em sacrifício a ti, num rito amargo.
Estudo VII
Posso agora buscar-me neste estranho
que uma falta de amparo, uma incerteza
de mim denunciou, sem mágoa ou custo.
Amo esta solidão porque me assiste
e me ensina o que sou. Todo o tumulto
desses rostos vazios, que não vivo,
dessas vozes que escuto, mas não sei,
dá-me a clara certeza de que existo
apenas para o amor que tu me dás
integralmente, para o dom tranqüilo
que procede de ti, como um roteiro.
E assim, nessa distância, se me busco,
vejo um gesto de amor, que te ofereço.
Do Tempo Entre Duas Águas
e inundará a várzea,
e cobrirá os jutais e os tapiris,
e invadirá os domínios da mata.
Minha gente conhecerá, ainda uma vez,
o espanto da enchente
e a ilusão dos jutais e das lamas humosas,
e se refugiará nas marombas
com seus animais
e as sementes de novas esperanças.
Os peixes se multiplicarão nos igapós,
e o rio doará à varzea a fertilidade das águas.
As florestas indomadas guardarão, ainda,
as riquezas da terra firme
e o segredo milenar das nossas jazidas.
Então,
convocaremos a força benéfica
que desobstruirá os canais dos nossos sonhos,
e iluminará os nossos corações;
e nos ensinará os caminhos da urbe,
com suas indústrias e seu comércio,
em que não seremos um amontoado de seres revoltados;
e nos ensinará os caminhos da várzea,
em que cultivaremos os nossos alimentos,
sem sermos consumidos pelas águas;
e nos ensinará os caminhos da terra firme,
em que apaziguaremos as florestas e o subsolo,
sem enveredarmos por transamazônicas impossíveis.
E o espírito da cidade será um bom companheiro,
e não nos punirá a cada dia
por nossas vidas;
e a mãe-do-rio permanecerá fértil e generosa,
e apascentará os cardumes
que alimentarão nossos filhos;
e o senhor da mata
porá nos nossos lábios a palavra certa
para o diálogo com as árvores e com a terra.
E terá chegado a hora
em que perpetuaremos o gesto simples
do amanho e da partilha justa,
entre nós mesmos,
dos nossos bens.
Soneto Aberto Sobre A Morte
festa dos círios e das lamparinas.
Um corpo magro sobre a mesa, e a porta
de esteira aberta para os companheiros.
Beatas, terço, cafezinho, estórias,
o choro inútil da mulher sozinha,
a promessa do céu dos escolhidos
e uma herança de palha e de abandono.
Brasileiro, do norte, agricultor.
Semeou, semeou a vida inteira,
fez o campo florir por tantas vezes,
alimentou mil pássaros vadios,
foi sempre bom, mas nunca teve sorte,
e se vestiu de trapos para a morte.
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Filho de Sjukiel Werk e de Alcides Gomes de Mattos. Ainda menino perde sua mãe vítima de malária.
Funcionário de carreira do DCT (posteriormente desmembrado em ECT e DENTEL).
Trabalhou como telegrafista no Tocantins, morou em Belém e em 1954 quando tinha 20 anos foi para Amazonas, fixando-se inicialmente em Manaus, mas indo depois para o Médio Amazonas (Maués, Nhamundá e áreas circunvizinhas), como funcionário de carreira do DENTEL, por onde se aposentou.
De volta a Manaus, lançou, em 74, Da Noite do Rio, cujos poemas passaram a fazer parte de Trilha D’água, lançado em 1980, e reeditado (com acréscimos) em 82, 85 e 94.
Trabalhou também na Imprensa Oficial, onde editou, por dois anos, o Suplemento Literário Amazonas.
O poeta faleceu em Manaus, no dia 13 de novembro de 2003.
SOBRE O AUTOR ↑
Poeta de identidade amazônica, forjada no convívio com o modo de vida interiorano, resultado de suas aventuras pelos altos rios, pelos paranás, pelos lagos distantes, abeberando-se da cultura aborígine.
Esteve sempre envolvido com questões culturais e exaltava a natureza e beleza de Manaus em suas poesias e canções.
Possuía excelente domínio de gramática e com muito gosto se dedicava ao trabalho de edição de livros, uma de suas mais importantes atividades.
Alcides Werk sempre será o poeta das águas. Enquanto alguns poetas nascidos no Amazonas migraram para outros estados brasileiros, fez a rota contrária. Deixou sua terra, Mato Grosso do Sul, chegando ao Amazonas em 1954, quando tinha apenas 20 anos, onde permaneceu até sua morte.
Apesar de íntima e apaixonadamente identificado com a região amazônica, Werk não se deixa inebriar pelo jogo fácil das cores. O claro/escuro de sua poesia tem nuances que só o olhar mais contemplativo e paciente poderá perceber. Considerando apenas o aspecto dia/noite, observa-se a gama de símbolos que o poeta utiliza.
Sob as luzes da mídia ou não, as águas que ele cantava ainda estão aqui, talvez mais rebeldes do que nunca com suas secas e cheias batendo recordes. Toda essa fúria, no entanto, se cala nos poemas que Alcides não escreveu.
Faleceu em 2003, deixando 5 filhos.
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