Alcides Villaça

Alcides Villaça

n. 1946 BR BR

Alcides Villaça é um poeta, ensaísta e tradutor brasileiro, reconhecido pela sua obra poética que transita entre o lírico e o filosófico, com uma linguagem cuidada e reflexiva. A sua escrita explora temas como a memória, o tempo, a identidade e a condição humana, muitas vezes com uma dimensão introspectiva e existencial. Com uma carreira consolidada, Villaça tem contribuído para a literatura contemporânea através da sua poesia e da sua atuação como tradutor e crítico literário, estabelecendo-se como uma voz importante na poesia em língua portuguesa.

n. 1946-11-28, Atibaia · m. , Rhöndorf

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Amigo

O amigo
não é bem o que ele diz
nem (é perigoso) o suposto silêncio profundo:
repousa na retina do outro
imagem colada dispersa
recortada
cheia de roupas e gestos característicos.

O amigo
causa o mal-estar da amizade incumprível
persegue-nos na solidão
não faz bem algum,
é distante se o vemos, jamais comparável
ao guardado lá em casa.

O amigo
nada sabe de nós
mas fita-nos
ouve-nos
melhor que uma pedra
(e não diremos nunca).
Será por certo um charlatão
fera para o primeiro bote
ou — quem sabe? — o anjo de riso certo
na precisão.

Que coisa incômoda um amigo.
Melhor ficássemos desolados
sob o parapeito
sem a insinuação periscópica
de seu talento de investigador.
Mas que boas intenções afinal não estarão
na
mão
do
amigo? (estendida em silêncio em silêncio sempre)

O amigo e um exagero de olhares.
Nem sabemos se o mesmo chão nos sustenta
se a mesma palavra é a mesma
como saber se o amigo
é o amigo?
Espelho da fronteira nossa?
Força do rio que conduzimos,
o barco ao lado, de proteção?

O amigo se perde na outra margem.
Olá.
E ele ouve de sua concha acústica.
Ele é perfeito, o amigo, ou nós o desenhamos
no vazio que grita?
O amigo é o fantasma de nós, não permitido
entre os secos lábios colados?
Que nome afinal ostenta para
vir ao domicílio do orgulho, desvendá-lo,
sair com ele
estandarte?

Proibamos o amigo. Melhor matá-lo
na esquina. E encararmos a avenida na madrugada
na vitória da névoa
e do silêncio.
Fechados no quarto
tapados ouvidos
esqueçamos esqueçamos o amigo.
Que já não olha.
Sem mãos nomes gestos juízes.
Somos muito mais,
inviolados nos quatro cantos do quarto
asas (sem eco) de morcego, noite adentro.

Faz falta o aplauso do amigo?


In: VILLAÇA, Alcides. O tempo e outros remorsos. Pref. Alfredo Bosi. Il. Edgard Rodrigues de Souza. São Paulo: Ática, 1975. Poema integrante da série Os Amigos
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Biografia

Identificação e contexto básico

Alcides Villaça é um poeta, ensaísta e tradutor brasileiro. É conhecido por uma obra poética que se distingue pela profundidade reflexiva e pela exploração de temas existenciais.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre a infância e formação de Alcides Villaça não são amplamente divulgadas em fontes públicas, mas a sua obra demonstra um percurso intelectual consistente e uma forte ligação com a literatura.

Percurso literário

O percurso literário de Alcides Villaça é marcado pela publicação de diversas obras poéticas e ensaísticas, além de sua atuação como tradutor. Sua escrita demonstra uma evolução no tratamento de temas universais, com um aprofundamento na linguagem e na estrutura poética.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Villaça aborda frequentemente temas como a memória, o tempo, a efemeridade da vida, a busca por sentido e a condição humana. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem precisa, muitas vezes densa em significados, e uma estrutura poética que pode variar entre o verso livre e formas mais tradicionais. O tom poético tende a ser introspectivo e filosófico.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Vivendo no Brasil contemporâneo, Villaça insere-se num contexto cultural rico e diversificado, dialogando com a tradição literária brasileira e internacional. Sua obra reflete uma sensibilidade às questões humanas e existenciais que transcendem o tempo histórico específico.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre a vida pessoal de Alcides Villaça são escassos em fontes públicas, mas sua obra sugere um indivíduo voltado para a reflexão e a interioridade.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Alcides Villaça é reconhecido no meio literário brasileiro pela qualidade de sua poesia e por sua contribuição como ensaísta e tradutor. Sua obra tem sido objeto de estudo e apreciação por críticos e leitores.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora influências específicas não sejam detalhadas, a profundidade de sua obra sugere uma familiaridade com a tradição poética universal e com a filosofia. Seu legado reside na sua contribuição para a poesia contemporânea brasileira com uma voz autoral e reflexiva.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Villaça convida a múltiplas interpretações, focando nas questões existenciais e na complexidade da experiência humana. A análise crítica de sua obra tende a destacar a precisão vocabular e a profundidade temática.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Informações sobre curiosidades e aspetos menos conhecidos de Alcides Villaça não são proeminentes nas fontes disponíveis.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Alcides Villaça está vivo, portanto, não há informações sobre morte e memória póstuma.

Poemas

11

Horizontal

A Margot

I Tua falta é toda
horizontal. Como teus braços
que não cabiam entre estátuas
requisitando espaços
desconhecidos.

Teus amigos nunca marcaram
teu limite ilimitável. Eras de todos
e de ninguém, como também sabias
te ausentar, presente,
e longe, nos saudar.
Não perdestes a mania.

Ficou nuns versos que leste
para mim, sem exclusividade,
a marca de uns lábios eternamente fantasmas
que reclamarão eternamente por vida.
Querias vida, ela te queria,
como irmãos que se entendem.

II Tua falta é toda
horizontal. Teu corpo se ressentia
de ar em pleno campo, e o suprias
no leque dos gestos largos
empinadores de nuvens,
Tudo em volta contaminação.

Gostaste das palavras. Pegaste
em minha mão para a cartilha imensa
de ti mesma, e enfileiraste amigos entre
dedos e anéis mágicos, dentes
dolorosos, marcas.

Prevenias, vingativamente, uma ausência
súbita: vivas pelo tempo que sempre
te faltaria, fosse em ti incontável,
em ti se reduzindo.

III Tua falta é toda
horizontal. Não atinge de vez,
de sempre fantasma que reclama a colheita.
Por isso te censuras, sorrindo,
o que de teu sorriso não frutificou.

Não frutificou o grito agudo de morte.
Não frutificou um abandono a todos os desesperos.
Não frutificou a inocência entre as relatividades.

Teu fruto único é o horizonte, a suavidade
de tua falta, o conforto de tua falta.
Pois já existiu quem faltava
e, sem dor, nos faz companhia.


In: VILLAÇA, Alcides. O tempo e outros remorsos. Pref. Alfredo Bosi. Il. Edgard Rodrigues de Souza. São Paulo: Ática, 1975. Poema integrante da série Os Amigos
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