Albano Dias Martins

Albano Dias Martins

1930–2018 · viveu 87 anos PT PT

Albano Dias Martins foi um poeta português cujo trabalho se insere num contexto de poesia mais tradicional, com um foco na exploração de temas como a natureza, a espiritualidade e os sentimentos humanos. A sua obra é marcada por uma linguagem cuidada e uma sensibilidade lírica que o distingue. Ao longo da sua carreira, Martins deixou um registo poético que reflete uma profunda observação do mundo e das emoções, consolidando-se como uma voz autêntica na literatura portuguesa, embora talvez menos proeminente que outros contemporâneos. O seu estilo caracteriza-se pela contenção expressiva e pela busca de uma beleza formal, onde a musicalidade do verso e a escolha precisa do vocabulário contribuem para a força das suas composições.

n. 1930-08-06, Fundão · m. 2018-06-06, Vila Nova de Gaia

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Ainda te falta dizer isto

Ainda te falta
dizer isto: que nem tudo
o que veio
chegou por acaso. Que há
flores que de ti
dependem, que foste
tu que deixaste
algumas lâmpadas
acesas. Que há
na brancura
do papel alguns
sinais de tinta
indecifráveis. E
que esse
é apenas
um dos capítulos do livro
em que tudo
se lê e nada
está escrito.
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Poemas

28

Ainda te falta dizer isto

Ainda te falta
dizer isto: que nem tudo
o que veio
chegou por acaso. Que há
flores que de ti
dependem, que foste
tu que deixaste
algumas lâmpadas
acesas. Que há
na brancura
do papel alguns
sinais de tinta
indecifráveis. E
que esse
é apenas
um dos capítulos do livro
em que tudo
se lê e nada
está escrito.
1 724

Teus ombros

de iodo :
germinação carnívora
de água e fogo.
1 005

O sonho

da lâmina: ser
ao mesmo tempo a bainha.

in:Com
as flores do salgueiro(1995)
1 210

Nem sempre

a neve
cai do céu: às vezes,
explode numa flor.
1 210

Como um

Como um
livro
Folheei o
teu corpo como um livro
à procura da tua alma : encontrei-a no índice.

1 311

Ofício e Morada

De barro somos, dizem os oráculos,
solícitas vozes do crepúsculo
ou das manhãs solenes, rotuais.

De heróis e deuses falam
mitos e salmos, dou
tos compêndios de
subtil doutrina. Assim
de urtigas e de musgo
se alimentam as parábolas,
escreve a ciência
os seus epitáfios.

De comércio sabemos.
Com âncoras e astro
lábios medimos
nossa rota inscrita
na retina. Exaustos,
entre aquáticas
florestas, perseguimos
os veados do sol
e da vertigem. Por
obscuras silícias
e cretas navegamos.

1 072

Palavras

Nenhum ramo
é seguro. Frágeis
são as palavras.

1 137

A Lâmina, o Punhal

Não haverá futuro — e haverá
somente esta lâmina
de quartzo lacerando
a carne amarrotada. E haverá
somente este punhal
de cinza cravado
entre almofadas inúteis
e lençóis vazios.

1 214

Perfume

Nomearás
a abelha. Do mel
só conheces
o perfume, a pálida
rosa dos favos
em botão. O gesto
suspenso à espera
da mão esquiva
que o sustente.

1 165

Crepúsculo de Agosto

Para a minha filha
Dos amigos que perdi
não falo. Sei
que estamos em agosto, mês
dos remos escaldantes, sei
que há lodo sob as algas,
sob a pele. Oblíqua,
sei também, a sombra
cai sobre as oliveiras. É
tempo de içares
tuas velas, teus ergueres
teus guindastes
junto ao rio. Dis
poníveis estão
as luzes; preparadas,
ermas estão as águas.

Preciso de arrumar a casa, rever o sistema, brunir
os móveis e o tato.
Preciso de opor o tempo ao tempo.
O espaço ao espaço.

1 437

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