Lista de Poemas
A LENDA
De que no Monte Hélicon vivia
O Pégaso, mais bela e mais selvagem
Das alimárias que no mundo havia
Belerofonte, para o seu intento
De derrotar Quimera, monstro horrendo,
Tivera que domar o cavalo alado
Que a ninguém jamais obedecia.
A única coisa com poder bastante
De fazer Pégaso obedecer alguém
Eram arreios mágicos, dourados,
Que Atena para o herói oferecera.
Doce menina, escuta o que eu de digo:
Meu coração é um Pégaso selvagem.
Teus cabelos, dourados como o Sol,
São os arreios que podem domina-lo.
Evolve, pois, meu corpo nos teus laços.
O meu amor encerra em tuas mãos.
Qual Pégaso e Belerofonte voaremos
Ao ponto mais distante da amplidão.
A UM SUICIDA
'Ele apenas acordou do sonho da existência'
(Shelley)
'Não vás tão gentilmente nessa noite linda'
(Dylan Thomas)
Poderias ter ficado
Mas em vez disso
Escolheste encarar
A infinita imensidão do Nada.
Eu poderia
Chamar-te fraco
Mas o que sei sobre a força
Quando mal consigo
Suportar o peso das lágrimas?
Só tu conheces tua dor
E ela ficou cerrada em teu esquife
Muda como uma esfinge
Misteriosa como um bruxo
Cortaste as veias
Como a navalha da aurora
Corta a madrugada
O que pensaste nesse instante?
Se a esperança te levou
Ou se por ela foste abandonado
Nunca saberemos
Sei que me abandonaste
Neste mundo cruel e sem sentido
Sendo refém do tempo
Que dissolve todas as alegrias
Poderias ter ficado
Mas em vez disso
Escolheste engrossar
As fileiras dos suicidas
Não apertaste contra as têmporas
O estampido rouco de um gatilho
Nem como Sócrates
Ingeriste veneno
Mas te rendeste
À magnética atração do Nada.
ESPELHO FALSO
Meu olhar é uma vela no escuro
Um tiro no muro
Que me faz dizer não.
É um espelho que mente
Como flores de sangue
Espalhadas no chão.
Mas a farsa sincera
Desta falsa mentira
Na verdade é um véu.
Meu olhar é sem igual
- toupeira transcendental
Cavando buracos no céu.
ENTARDECER
do vento
Uma velha canção
Que já encontrou seu tema
Nada é tão duro
quanto o tempo
- Um bicho que vem
Da profundeza das eras
Rumando em trilhos obscuros
De que me nasce esta saudade?
Pássaro de ferro
que não conhece nada
a não ser a cor do mar
se dissolvendo em pedras.
Quisera não ser fraco,
não ter o chão de vidro
quisera ter a força
das árvores
que desfalecem em pé
E os dias seguem ruminando tudo
pintando as minhas têmporas
com o gris das mágoas
As minhas têmporas...
querem sentir o sabor
de uma pistola.
O TEU LUGAR
Para Kalinina Sampaio
Na violenta agitação do mar.
Encontrei-te impressa nessas pedras
Que onda nenhuma consegue perfurar.
Escuto a tua voz, mas não consigo
Achá-la nesses campos tortuosos
Onde as cores desvanecem com um aceno
E se desmontam com os primeiros raios da alvorada.
Tu não estás no vendaval
Que sai decapitando as roseiras, nem tampouco
Na corrente do rio que tudo afoga.
Em vão rasgaria o tecido do espaço
E inclinaria o olhar para a casa dos deuses:
Veria berços vazios e covas lotadas,
Um relógio vomitado pelo acaso,
Astros que seguem caminhando sem guia...
Tu não estás lá.
Não te encontras no rol das estrelas de gelo
Nem das flores de fogo, que são filhas do tempo.
Não estás neste solo que piso
Como fosse de vidro, ou de nuvens, talvez.
Teu lugar é ali, onde os números reinam.
Na dimensão dos átomos sem massa,
Nas margens do curso do tempo,
Entre a página onze e doze da Odisseia.
Teu nome está escrito com uma tinta indelével
Na parte mais profunda do meu coração
A NOITE MAIS DENSA
As estrelas choravam
Suas lágrimas de prata sobre o mar
E eu pendurava os peixes
Nos degraus da Lua.
A noite era densa...
Mais do que isso, era imensa,
Dentro dela os corações se congelavam
Enquanto eu regava pequenas esperanças
Que conduzo pela mão
A noite era densa
Os postes rezavam em silêncio
Todos os caminhos convergiam
Para as janelas dos apartamentos.
E eu te falava
Sobre a graça indizível
De ser infeliz
MOÇA DOS OLHOS DE CHUVA
Para Amanda Santos
Pra onde levas, assim, meu coração?
Fardo cruel que trago no peito
E que carrego por caminhos onde a luz jamais pisou.
Para onde o levas? Que obscuros mistérios
Movem de tal forma tua mão involuntária?
Moça dos olhos de chuva, do rosto de neve,
Por mil noites vaguei na sombra silenciosa do tempo
E ouvi a voz austera do vento de Março
Soprando pelos corredores da mansão do medo
Para onde me arrastas. Rumino, a um canto, a conclusão:
Minha alma não paga esse sequestro...
Moça dos olhos de chuva e do sorriso de Sol,
O mundo inteiro jaz no simples gesto
De derramar nos meus ouvidos lassos
A doce canção da tua voz. No entanto
A paz é fuzilada. Caminha, tropeça, morre
Nos campos onde sempre é dia de finados.
Moça dos olhos de chuva, dos olhos imensos,
Profundos como o céu e repletos de perigo
Como as entranhas dos vastos oceanos.
Quero por eles lançar minhas velas em chamas
Mesmo que o naufrágio seja a única promessa.
O mundo inteiro jaz no teu sorriso...
Moça dos olhos de chuva, a tempestade anuncia
A completa ruína das muralhas de outrora.
A tristeza das horas fica gravada pelo gesto frio
De entalhar teu nome nas pedras do tempo
Enquanto observo teu vulto se distanciando
Como uma ave que se dissolve em pleno voo.
Moça dos olhos de chuva, derrame sobre o campo
Onde plantei a semente da minha ternura
Esses raios de luz do teu olhar
Que atravessam meu peito como flechas de saudade.
SILÊNCIO
São gotas de tristeza
No céu
Os versos
São marcas de silêncio
No papel.
MADRIGAL II
Anjo exilado do celeste abrigo,
Que à Terra trouxe o teu sublime encanto,
Ouve as palavras deste pobre amigo
Que te admira e que te adora tanto.
As noites passo a cismar sozinho
Se há no mundo alguma coisa bela
Que merecesse a flor do meu carinho
E eu merecesse a do carinho dela.
Aceita os pobres versos de presente
Que foram escritos com ternura tanta.
São explosões que surgem de repente
Das confissões que guardo na garganta.
Difícil é crer que há no mundo alguém
Tão linda e tão perfeita quanto és.
O astro mais belo que o céu retém
Nem mesmo chega-te ao dedão dos pés.
Se eu ver-te assim, a caminhar na areia,
Tão graciosa na beira do mar,
Diria se tratar de uma sereia
Que a terra seca veio visitar.
És mais bela que os raios da manhã
Quando desperta o Sol do seu sono profundo.
Maior que Michelangelo e Rodin
É o escultor que te plasmou no mundo.
Que ágeis mãos teu corpo deram forma?
Quem foi o teu augusto artesão?
De quais modelos, qual padrão, qual norma
Foi imitada a tua perfeição?
As roseiras de ti sentem ciúme,
As estrelas invejam teu sorriso,
A beleza em teu rosto se resume,
És pedaço fatal do Paraíso.
Não é mais bela a joia mais brilhante
Do que teus olhos, posso assegurar.
Até mesmo o mais caro diamante
Não brilha como brilha teu olhar.
O olhar, quando te encontra, se demora.
Diante de ti o ocaso se intimida.
Mesmo a Lua, tão bela e encantadora,
Lamentaria, se tivesse vida.
Pra essa beleza já não há rival
Entre os seres criados e incriados.
Na cristalina esfera celestial
Pendem anjos por ti enamorados.
No entanto, eu nada tenho a oferecer-te
Em paga aos sentimentos que despertas.
Tenho apenas a lira, a mão inerte,
E um peito cheio de chagas abertas.
Anjo exilado da celeste altura,
Aceite os versos de doçura e fel,
Que os leia e pense neles com ternura
E lembre do teu triste menestrel.
A NOITE
E alongar seus dedos dolorosos
Por meus cabelos já esbranquiçados
E por meus ossos, trêmulos, de vidro.
Sinto a noite, seu ósculo gelado
Selando a clara e morna tarde de estio
E atrás de si, seus cavaleiros
Virem, a tropel, em seus cavalos negros
Arrancar de mim os seus despojos.
Sinto a noite crescer na solidão
Da velha casa abandonada do meu coração,
Roendo as paredes cobertas de lodo,
Os velhos retratos que o tempo
Teve o devido cuidado
De deixar somente as lembranças,
As duras linhas onde eu escrevi
Os primeiros poemas,
Meus livros - a porta sempre aberta
Para o refúgio de ideias e palavras,
Sinto a noite roer meus paradigmas,
Minha infância, meu primeiro beijo,
Tímido e amedrontado,
Meus sonhos, minhas crenças
E tudo que não possa ser vendido
Ou sequer trocado.
Sinto a noite apagar meus pensamentos,
A longa trilha dos meus devaneios,
Sinto a noite apagar a minha história
Enquanto multiplica meus aniversários,
E como consequência de tal sequestro
Já não me reconheço para além desta angústia.
Sinto a noite apagar meus anseios,
Meu amor, minha vontade de viver.
Somente essa saudade não se apaga,
Essa saudade de tudo que não foi.
Comentários (0)
NoComments
Português
English
Español