Lista de Poemas
Porque
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
25 de Abril
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
A Hora da Partida
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.
A hora da partida soa quando
As árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.
Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.
Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.
Mar
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.
E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras.
Se Tanto Me Dói Que As Coisas Passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na luta por um bem definitivo
Em que as coisas de amor se eternizassem.
Prece
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.
Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.
Um Dia
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.
O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados, irreais,
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.
Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais, na voz do mar,
E em nós germinará a sua fala.
Chamo-Te Porque Tudo Está Ainda No Princípio
E suportar é o tempo mais comprido.
Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só dos Teus olhares me purifique e acabe.
Há muitas coisas que eu não quero ver.
Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o Teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a terra
Em Primavera feroz precipitado.
Retrato de Uma Princesa Desconhecida
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos
Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino
Comentarios (0)
NoComments
Documentário Sophia de Mello Breyner Andresen O Nome das Coisas
Há Mulheres Que Trazem O Mar Nos Olhos | Poema de Sophia de Mello Breyner narração Mundo Dos Poemas
Coral e outros poemas Sophia de Mello Breyner Andresen Leituras obrigatórias 2024 Vestibular UFRGS
Sophia de Mello Breyner Andresen - Joao César Monteiro 1969
Sophia de Mello Breyner Andresen: espiritualidade e religiosidade
Conheça a escritora Sophia de Mello Breyner Andresen, no Trilhas Literárias
Sophia de Mello Breyner Andresen | Biografia
entrevista Sophia Mello Bryner Andreson
Sophia de Mello Breyner Andresen
MEDITAÇÃO DO DUQUE DE GÂNDIA, Sophia de Mello Breyner Andresen - Rita Loureiro
Sophia de Mello Breyner Andresen em entrevista à Emissora Nacional em 1974
Porque | Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen com narração de Mundo Dos Poemas
Para Atravessar Contigo O Deserto... | Poema de Sophia de Mello Breyner narrado por Mundo Dos Poemas
Soneto À Maneira De Camões | Poema de Sophia de Mello Breyner com narração de Mundo Dos Poemas
Evocação de Sophia de Mello Breyner Andresen I - Festa Literária Folha 2019
Julia Maria | O Velho Abutre | Sophia de Mello Breyner Andresen
"Em vão chamará pelo vento" | SOPHIA DE MELLO BREYNER
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
LIBERDADE - Um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen - poesia narrada e legendada - AMO POEMAS
A Forma Justa | Poema de Sophia de Mello Breyner com narração de Mundo Dos Poemas
Por Delicadeza | Poema de Sophia de Mello Breyner com narração de Mundo Dos Poemas
Clara Mello | Sem Título | Sophia de Mello Breyner Andresen
"Sophia de Mello Breyner Andresen" (reportagem)
Quando (Sophia de Mello Breyner Andresen)
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESSEN - Poetas do Mundo #25
Cidade - Sophia de Mello Breyner Andresen
A Paz Sem Vencedores Nem Vencidos | Poema de Sophia de Mello Breyner narrado por Mundo Dos Poemas
25 DE ABRIL - Poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen
519 - Inscrição - Sophia de Mello Breyner Andresen
Quando | Poema de Sophia de Mello Breyner com narração de Mundo Dos Poemas
Poeme-se: Jorge Pontual declama Sophia de Mello Breyner Andresen
Pudesse eu, Sophia de Mello Breyner Andresen
AS PESSOAS SENSÍVEIS, de Sophia de Mello Breyner Andresen | #AventurasTodoDia
Sophia de Mello Breyner Andresen — Inscrição | Poesia Portuguesa #shorts
Sophia de Mello Breyner Andresen no Panteão Nacional
Sophia de Mello Breyner Andresen Para Atravessar Contigo O Deserto Do Mundo Cristina Branco
"Revolução - Descobrimento" - Sophia de Mello Breyner Andresen
Em Todos Os Jardins Hei-de Florir | Poema de Sophia De Mello Breyner, com Narração
ep. 147 "Navegações" Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen, Deriva VIII - Diogo Infante
"Sophia de Mello Breyner Andresen" (1969) - Parte 1
Apesar das ruínas e da morte - Sophia de Mello Breyner Andresen
Homenagem de Lisboa a Sophia de Mello Breyner Andresen
Mar, Sophia de Mello Breyner Andresen
A vida de Sophia de Mello Breyner Andresen
#2 Dia Mundial da Poesia: Inês Pereira lê Sophia de Mello Breyner Andresen
#onossopoemário - "Apesar das ruinas e da morte" de Sophia de Mello Breyner Andresen
"Revolução", de Sophia de Mello Breyner Andresen
21 MAR 2020 | #ligadospelapoesia | Sophia de Mello Breyner Andresen, "Liberdade"
Terror De Te Amar | Poema de Sophia de Mello Breyner com narração de Mundo Dos Poemas