Escritas

Lista de Poemas

Uma Canção de Amor

Na cidade a noite
Entre nós o peixe
Estamos sós, amor,
Somos um do outro,
É simples.

Quando nos conhecemos,
Chovia.
Era inverno no mar.
Havia dinheiro,
Fomos ao baile.

Uma luz tinha nome,
Não era Deus, não era,
Havia também uma cama
E os nossos corpos eram macios.

Viajámos vezes sem conta,
Porque somos pessoas humildes,
Com um segredo apenas:
Vermo-nos no dia seguinte.

Por isso,
Lemos nos intervalos dos gestos,
Aprendemos a tabuada dos sentidos,
Bebemos cerveja gelada,
Fazemos canções castas.

Somos puros, é verdade,
Tanto que ninguém nos quer,
E tão inocentes no dia a dia,
Que temos dívidas.

Devemos os olhos que temos,
Devemos o vermelho dos lábios,
Devemos todos os sonhos,
Devemos o pão e o sal.

Certo temos sinais diferentes,
Luas que não acertam com eles,
Por vezes chegamos a ser perversos,
Porque eles são redondos, nós esguios,
Amor.

Mas o beijo que nos une
É um silêncio justo, alegre,
E o amor que fazemos
É como o vento sobre o vento.
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Biografia Inventada

Sou Úrsula, chamo-me Luísa,
Tenho olhos de distância,
Cresci na neve, vivo no sol.

De mulher tenho o feminino,
Medalha que me enfeita,
O meu sorriso é espelho.

Nele me vi, havia música,
Também anjos, também guerras,
Também dores, também amores.

Cantei no espaço, uma voz branca,
Voz de mulher, minha do nascer,
Soube a matéria, tentei o destino.

Depois pisei a água fria
E mergulhei até ao peixe,
Das escamas fiz um colar.

Cada escama era uma pedra
Colorida para enfeitiçar,
de todas escolhi a do cantar.

O canto é o meu hálito,
Escorre-me pelos lábios,
Na garganta tenho éguas.

Uma é céu, outra é terra,
Uma é mar, outra é fogo,
Juntas são o meu cantar.

Canto sobre o canto, o canto,
Uma Úrsula chamada Luísa
Na aventura do mundo.
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O Limiar

Numa casa entre o castelo e o rio,
A mãe dos dentes brancos sofria,
De dentro dela um menino solar,
Vindo das águas maternais, nascia.

Antes e depois o mesmo crepúsculo,
As mesmas matérias cor de salsa,
Uma expulsão lenta, uma certa vida,
Que vem do escuro para a luz do dia.

As suas pequenas mãos fecharam-se,
Era dele o cenário, o mundo todo,
Menino de coração fora do peito,
Menino de olhos fundos cor de lodo.

Mãe, tu viste da janela antiga,
Entre o castelo e o rio,
Uma estrela de sete pontas
A cintilar em águas maternais?

Era eu com vida e com morte,
No líquido do meu alvorecer,
Dentro de ti para vir à luz,
Dentro de mim para viver.
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A Cerveja Sabe

Preciso de cerveja para viver o poema,
da hora tardia para não ser o outro eu,
preciso de ouvir palavras dentro de mim
e de estar só como a estátua do jardim.

Comecei assim, pelo fim das coisas,
digo, no termo da vida, a cerveja sabe,
não há guerreiro, não há Virgílio,
há a morte como um espanto esperado.

Quando te bebo vejo o pero encarnado,
monto as cenas no palco inventado,
alinho-as uma a uma, são pedras erectas,
são soluços, silêncios, portas fechadas.

Escrever, disseram-me, é não ver quem vive,
é percorrer uma estrada com bicos,
apostar no cavalo alado, com chumbo na asa,
é ter nos lábios a guerra murmurada.

Preciso de cerveja, falo claro, sou eu,
apenas isto, num mundo de surpresas,
temporal inesperado, casa destruída,
flor escarlate, vegetal com cabeça.

Deslumbrado olho o corpo da esfinge,
suponho o arquitecto, deito-me na duna,
detesto a cadeira, odeio a cinza,
no dia em que bebo sento-me à espera.
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Viver Amarelo

Um dia descobri uma cidade amarela
Com dois cubos no começo e no fim,
No primeiro havia uma estátua cega,
No segundo um tigre real alado.

Percorri as ruas havia tristeza,
Visitei os jardins não havia maçãs,
Só havia um animal livre hiante,
Tanto que era um lobo uivante.

Os prédios eram como almas alinhadas,
Respiravam arfantes como o fole respira,
Em vez de janelas tinham olhos cegos,
Em vez de portas tinham bocas cerradas.

No palácio da cidade o eco sussurrante
De livros esfarrapados a vogarem soltos,
Não mais que indícios, um nevoeiro,
Fumo que pairava num mundo amarelo.

Para não ser diferente pintei o rosto,
E tudo ficou igual, da cor do doce mel,
Comigo a estátua cega, o tigre alado,
Comigo o lobo uivante, o sono eternal.
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Viagem Para Dentro

Nasci dentro da terra,
Percorri as estações,
Nos anos vivi os anos,
Tenho olhos de prata.

Um dia fiz a viagem,
Acordei quem dormia,
A bola vermelha rolou,
Saiu-me a lotaria.

Pus-me ao caminho,
Fiz o passe de crescer,
Encontrei quem amar,
Renasci onde nasci.

Falei com poetas,
Tangi as harpas,
Meti-me no deserto,
Ergui-me em pirâmide.

No interior da mina
A palavra descobri,
O mineiro escavou-a,
Abriu-se em metais.

Longe havia o horizonte,
A linha onde tudo flutua,
Naveguei para nascente,
Arpoei o sol que vinha.

Quis agitar a onda,
Ver o delfim emergir,
Vi ao longe o poeta,
Tinha olhos de goraz.

Trouxe-me o poema,
O mapa dos meus olhos,
A pele que me cobre,
A respiração que vivo.
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A Noite Sabe

Preciso da noite para ser poema,
da hora tardia para ser o outro eu,
da palavra emergir dentro de mim,
de estar só como a estátua do jardim.

Tarde comecei, pelo fim dos meus dias,
digo, no termo da viagem, a noite sabe,
o Virgílio branqueou, o guerreiro foi-se,
no túnel a morte é o sinal esperado.

Na noite vejo a maçã encarnada,
polposa na fruteira, cofre de memórias,
saindo uma a uma, visões, imagens
rostos diluídos, são antigas histórias.

Sei, recordar é não ver quem vive
é percorrer gastos empedrados
apostar errado, perder
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Canção Em É

A dor que se tem quando só
É um guardanapo dobrado, é,
Cada dobra a lágrima que vem,
Pérola que cai pingo a pingo, é.

Desfiar lento, água salgada,
Dor a dor sofrimento ai, é,
Como se fora fonte infinda
No paraíso do amor, o que é?

Tudo pode doer, até o coração,
Feito de carne e sangue como é,
Tudo pode doer até mais não,
Que a solidão é punhal, pois é.

Depois chove, é natureza,
A erva cresce, o líquen é,
Viajo na noite, apanho o escuro,
Meu amor nada continua de pé.

Por assim ser, sendo como é,
Tudo se cose e recose em dó,
Na sinfonia que se compõe, é,
Esta coisa simples de estar só.
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O Desenho do Corpo

Na palma da mão tenho um insecto,
Na arca do peito um coração,
Na curva do ventre uma teia.

Duas estradas são os meus braços,
Dois ramos as minhas pernas,
Vivo no espaço do tempo.

Na minha pele há uma história,
Feita de antigos sinais,
Cada um deles é um rosto.

Meus dedos são alicates,
Máquinas do ofício de viver,
Por eles sei o nome do amor.

Os olhos, esses, sempre o disse,
São espelhos que se mostram,
Quando os uso prolongo o canto.

A minha auréola são os cabelos,
Coroa de quem se oculta,
Manto sedoso, duna do corpo.

Com os lábios beijo, urdo os sentidos,
A saliva é o líquido que escorre
E cativa o desejo de quem quero.

Em mim tenho a página do segredo,
O impulso do mistério inteiro,
Do canto a que me dou, dando-me.
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Deus

Deus é a porta, a cadeira, a cama
Deus é um bolo de anos, açúcar,
Deus é a digestão da Fada-Madrinha,
Deus tem o hálito da romã rosada.

Um dia vi Deus, tinha corrido no prado,
chamava-se Deus, vinha de amar a criança,
nos seus olhos cintilantes havia a luz coada
de um céu com pinhões e favas salgadas.

Amo Deus e a sua igreja alada, papal,
amo Deus e sua mãe, e seu pai, e seu tio,
amo a sagrada família, sou ferveroso,
ser Deus
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