Lista de Poemas

Já Sei o Que Se Passa No Mundo

Já sei o que se passa no mundo.
Ouvi a música da vitória,
vi a multidão hiante a correr,
os rostos como narizes compridos.

Ouvi as vozes da vitória,
mastigavam como vulcões, mordiam.
Eram todos bonitos, ganharam.
Tinham as caras dos pais, ganiam.

Vieram do campeonato, tinham alma,
eram jovens, comiam, como comiam!
Tisnados da praia, olhos pardos, barba,
tudo que faz parte da agonia.

Têm rabo, picha grande, acne,
são o futuro, conhecem dinheiro,
mas ganharam, alpista para eles,
vitória para nós, parecem bigodes.

Têm razão, são as vozes, os voos
do mundo, são os corredores da morte,
os rapazes do grande balão,
os amortecedores do colchão.
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A Cerveja Sabe

Preciso de cerveja para viver o poema,
da hora tardia para não ser o outro eu,
preciso de ouvir palavras dentro de mim
e de estar só como a estátua do jardim.

Comecei assim, pelo fim das coisas,
digo, no termo da vida, a cerveja sabe,
não há guerreiro, não há Virgílio,
há a morte como um espanto esperado.

Quando te bebo vejo o pero encarnado,
monto as cenas no palco inventado,
alinho-as uma a uma, são pedras erectas,
são soluços, silêncios, portas fechadas.

Escrever, disseram-me, é não ver quem vive,
é percorrer uma estrada com bicos,
apostar no cavalo alado, com chumbo na asa,
é ter nos lábios a guerra murmurada.

Preciso de cerveja, falo claro, sou eu,
apenas isto, num mundo de surpresas,
temporal inesperado, casa destruída,
flor escarlate, vegetal com cabeça.

Deslumbrado olho o corpo da esfinge,
suponho o arquitecto, deito-me na duna,
detesto a cadeira, odeio a cinza,
no dia em que bebo sento-me à espera.
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O Jovem Azul

O jovem azul não é o amor,
O jovem azul chama-se sonho,
O jovem azul é espacial,
É azul,
Mas não tem asas de anjo,
Não tem.

Azul é uma cor não é um jovem azul,
É coisa sem asas, quase um barco,
Com um coração de fora,
Talvez um cogumelo,
Nunca saberei o que o jovem azul é.

Neste saber e não saber,
Percorro lento o sonho antigo,
Enquanto subo a escadaria,
Passo a passo,
Como qualquer um a que o azul assiste.

Chego assim ao limite de cima,
De sonho feito com máscara arlequim,
Sem conhecer o meu sonho azul,
Sem ao menos lhe conhecer o fim.
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O Limiar

Numa casa entre o castelo e o rio,
A mãe dos dentes brancos sofria,
De dentro dela um menino solar,
Vindo das águas maternais, nascia.

Antes e depois o mesmo crepúsculo,
As mesmas matérias cor de salsa,
Uma expulsão lenta, uma certa vida,
Que vem do escuro para a luz do dia.

As suas pequenas mãos fecharam-se,
Era dele o cenário, o mundo todo,
Menino de coração fora do peito,
Menino de olhos fundos cor de lodo.

Mãe, tu viste da janela antiga,
Entre o castelo e o rio,
Uma estrela de sete pontas
A cintilar em águas maternais?

Era eu com vida e com morte,
No líquido do meu alvorecer,
Dentro de ti para vir à luz,
Dentro de mim para viver.
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A Bebida Branca

A bebida branca é o arbusto
que nasce na duna ventosa.
Ao longe o mar não assusta
é a nuvem que o vento agita.

Estava na rocha havia sal
nos olhos a fogueira do sol
o mar era recorte tinha rosto
parecia um ombro sem corpo.

Desci a ravina era íngreme
a rocha abismo era medo,
descê-la requeria cuidado,
havia uma estrela escura.

Entre o dia e a noite a visão
a sirene do aviso buuuuu
chegar à praia estar salvo
entrar no arbusto ser vento

corpo erecto no sol extenso
água dentro certeza de vida
vai, menino, acerta as horas,
à tua frente tens o longe.

O molhado era o reino quieto
quase azevia entre areias
só a bolha do respirar
com o mergulho do menino

Tudo vem da bebida arbusto
do entre ser, na praia da duna
nos idos da memória veja-se
isto palavras olhos poesia.
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A Luz Encarnada

A luz encarnada é o proibido
Na cidade povoada de fendas.
A luz encarnada é o pigmento
Dos rostos tintados de cólera.

A luz encarnada é a corrida Sade,
Explosão sem princípio nem fim.
A luz encarnada é o meu amor assim,
Visão que às vezes é peixe galo.

A luz encarnada é o sangue da cabra
Imolada no altar da capela papal.
A luz encarnada é o homem na cruz,
Sonho antigo para se morrer santo.

A luz encarnada é o devasso nu
Erecto no horizonte dos ventres.
A luz encarnada é a erva daninha
Que tudo envenena com seu hálito.

A luz encarnada é o gás letal
Na câmara escura da inocência.
A luz encarnada é a praga do sangue
Que bolça dos ouvidos da criança.

Veio ao mundo havia uma guerra grega,
Havia também um olho cor de âmbar,
Farol da máquina macho de Jarry.
Só não havia o meu amor assim.
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Estar Longe do Verde Prado

Estar longe do verde prado
onde as vacas ruminam ais.
Estar longe da égua ciosa
que corre veloz nos pinhais.

Estar longe, cada vez mais,
da laranja que verteu sumo.
Estar longe do por onde vais,
que tudo, mas tudo, acabou fumo.
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Deus

Deus é a porta, a cadeira, a cama
Deus é um bolo de anos, açúcar,
Deus é a digestão da Fada-Madrinha,
Deus tem o hálito da romã rosada.

Um dia vi Deus, tinha corrido no prado,
chamava-se Deus, vinha de amar a criança,
nos seus olhos cintilantes havia a luz coada
de um céu com pinhões e favas salgadas.

Amo Deus e a sua igreja alada, papal,
amo Deus e sua mãe, e seu pai, e seu tio,
amo a sagrada família, sou ferveroso,
ser Deus
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Canção Nocturna

Hesitei na escolha, cresceu a dúvida,
Mas sou como sou, um caso que faz fumo.
Quem dera que fosse crente, era bom,
Sou apenas um poço rodeado de olhos.

Vejo o mundo como quem vê o líquido,
Durmo enterrado na erva vermelha,
Minhas mãos são algas tacteantes
E o que percorrem tem a cor da água.

No fundo é isso, o castelo é transparente,
Tem linhas vagas, não pode sobreviver,
É um labirinto com a saída gradeada.
Nunca saberei o que sou, fumo e chega.

Mas não estou no final, não estou, vivo
com um pé no eixo, outro na margem, nado
Num mar pleno de cabeças, tu e tu e tu,
Nomes com rostos vistos ao longe, de longe.
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A Maçã

As altas chaminés da fábrica,
Na noite remota da infância
Eram troncos rubros, eram fogo.

Na fruteira lavrada havia a maçã.

Os pesados carros, as sirenes,
As correrias dos homens, os gritos,
Os uivos das mulheres, as explosões.

Na fruteira a maçã amadurecia.

Incandescências vogavam na noite,
Havia vento, era um chicote quente,
Os corações pulsavam, os corações.

Na fruteira a maçã suava.

Nas alturas o cogumelo de fogo,
Um outro sol como se fora fábula,
Crepitava, meu corpo tremia.

Na fruteira a maçã crestava.

Chama fremente da cor do que arde,
O cogumelo de fogo da noite fazia dia,
E a cada explosão as chamas repartia.

Na fruteira a maçã gretava.

Tornou-se desejo o cogumelo longínquo,
Cobiça de criança, deslumbramento,
Possuí-lo seria belo, diferente.

Na fruteira a maçã abria-se.

De manhã findo o fogo, apenas o fumo,
Ao esplendor sucedera a monotonia,
Fora-se o sonho, só o cinzento havia.

Na fruteira a maçã tinha a cor do lume.
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