Tomás Ribeiro

Tomás Ribeiro

1831–1901 · viveu 69 anos PT PT

Tomás Ribeiro foi um poeta e político português, figura proeminente da poesia da segunda metade do século XIX. A sua obra, marcada pelo arcadismo tardio e pela transição para o romantismo, explora temas como o amor, a natureza, a saudade e o patriotismo, com um estilo cuidado e uma musicalidade apurada. Destacou-se não só pela sua produção literária, mas também pela sua atuação política e pela sua dedicação à causa pública. A sua poesia reflete uma sensibilidade lírica e uma preocupação com a forma, consolidando-o como um nome importante na literatura portuguesa do seu tempo.

n. 1831-07-01, Parada de Gonta · m. 1901-02-06, Lisboa

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Carta que Estela Deixou à Filha

Fragmento do canto VIII do D. Jaime

...........................................................
A vítima infeliz de ímproba sorte,
vede o que ela escrevia à triste filha,
momentos antes de chegar a morte:

— "Filha! não posso agasalhar-te em vida;
rosa pendida que te vais finar!
quem te arrancara dessas mãos ferozes
dos meus algozes que te vão matar!

À campa vamos! Ai! depois da morte,
quem sabe a sorte a que estas almas vão!...
Que anseio! filha! que soldado abismo!
tu... sem batismo! e eu... sem confissão!

Não! Deus é pai! somente aos maus condena!
Foi por quem pena que penou Jesus!
Sejam meus prantos do batismo as águas!...
Deus! pelas mágoas que te deu a cruz!

Vai, filha! os anjos te recebem ledos!
guarda os segredos que me ouviste aqui.
Quando avistares do Senhor a sede,
por mim lhe pede, que também morri!

Vai! Dize aos anjos que te dêem seus cantos,
por estes prantos que meus olhos têm!
e se em mim perdes maternal ternura,
a Virgem pura que te seja mãe!...

Ai! flor de neve com dourada coma!
que alvor! que aroma! se não perde aqui!
Ai! rosa minha de matiz vestida;
que amor! que vida! que eu sonhei por ti!

Teu pai, rojado por inglória senda,
que vida horrenda viverá também!...
rico inda ontem, poderoso e nobre!
hoje tão pobre, que nem nome tem!

Eu fui a sombra que toldou de escuro
todo o futuro que o verá viver!...
Eu fui a estrela que em lugar do norte,
lhe aponta a morte que o fará morrer!

Aos meus perdôo, que me deram tratos;
raça de ingratos, com que eu vivi!
Não choro os dias que sonhei serenos...
que em paga ao menos morrerei por ti.

A ti, a ele, deixarei somente,
num beijo ardente o derradeiro adeus!...
Correi, algozes, já me não confranjo!
mártir e anjo, têm direito aos céus!"

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Biografia

Identificação e contexto básico

Tomás Manuel de Noronha Ribeiro, conhecido como Tomás Ribeiro, nasceu em Coimbra. Foi um poeta, escritor e político português. Pseudónimos ou heterónimos não são proeminentes na sua carreira. A sua obra insere-se no contexto literário do século XIX em Portugal.

Infância e formação

Tomás Ribeiro nasceu numa família de renome, o que lhe proporcionou acesso a uma educação privilegiada. Frequentou a Universidade de Coimbra, onde estudou Direito, um percurso comum para jovens da sua condição social. A sua formação foi influenciada pela cultura clássica e pelas correntes literárias europeias da época, com destaque para o arcadismo e as primeiras manifestações do romantismo.

Percurso literário

O início da sua escrita poética remonta à juventude, com poemas que já demonstravam uma inclinação para o lirismo e a forma cuidada. Ao longo do tempo, a sua obra evoluiu, absorvendo influências românticas sem, contudo, abandonar completamente a elegância formal do arcadismo. Colaborou em diversas publicações literárias da época, contribuindo para a difusão da sua obra e para o debate estético.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra mais conhecida de Tomás Ribeiro é "D. Lameirim" (1854), um longo poema narrativo que lhe valeu reconhecimento. Outras obras incluem "Jardim Poético" e "Últimos Poemas". Os temas recorrentes são o amor, a pátria, a natureza, a religião e a saudade. O seu estilo é marcado pela musicalidade, pela elegância da linguagem e pela busca da forma perfeita, com especial apreço pelo soneto e por metros tradicionais. A sua voz poética é lírica e, por vezes, elegíaca, expressando sentimentos profundos com requinte formal.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Tomás Ribeiro viveu numa época de transição em Portugal, marcada por instabilidade política e pela consolidação do Estado liberal. Fez parte da chamada "Geração de 50", um grupo de escritores que procurava modernizar a literatura portuguesa, absorvendo influências europeias, nomeadamente do romantismo francês. Manteve relações com outros escritores e intelectuais da época, participando ativamente nos círculos literários e políticos.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Para além da sua atividade literária, Tomás Ribeiro exerceu funções políticas relevantes, tendo sido deputado e Ministro. As suas relações pessoais e familiares, embora não detalhadamente exploradas na sua obra, terão contribuído para a sua visão de mundo e para a sua sensibilidade. A sua vida foi marcada por um profundo sentido de dever cívico e patriótico.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Em vida, Tomás Ribeiro foi um poeta reconhecido e respeitado, com a sua obra a ser bem acolhida pela crítica e pelo público. O seu poema "D. Lameirim" consolidou a sua posição no panteão literário português. Após a sua morte, o seu reconhecimento manteve-se, embora as gerações posteriores de críticos literários tenham reavaliado o seu lugar, especialmente face às vanguardas literárias que emergiram.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Tomás Ribeiro foi influenciado por poetas clássicos e pelos românticos europeus. O seu legado reside na preservação da musicalidade e da forma na poesia portuguesa, e na sua contribuição para a transição do arcadismo para o romantismo. Influenciou poetas que valorizavam a métrica e o lirismo cuidado.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Tomás Ribeiro é frequentemente analisada sob a ótica do seu lirismo e da sua mestria formal. As críticas modernas por vezes apontam para um certo conservadorismo temático e estilístico quando comparado com as revoluções literárias do século XX, mas reconhecem a sua importância como ponte entre duas épocas literárias.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto curioso da sua vida foi o seu envolvimento com a política, exercendo cargos de grande responsabilidade, o que demonstrava uma faceta de homem de estado para além da de poeta.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Tomás Ribeiro faleceu em Lisboa. As circunstâncias da sua morte não são particularmente notáveis. A sua memória é preservada como a de um poeta importante do Romantismo português e de uma figura pública dedicada ao país.

Poemas

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Carta que Estela Deixou à Filha

Fragmento do canto VIII do D. Jaime

...........................................................
A vítima infeliz de ímproba sorte,
vede o que ela escrevia à triste filha,
momentos antes de chegar a morte:

— "Filha! não posso agasalhar-te em vida;
rosa pendida que te vais finar!
quem te arrancara dessas mãos ferozes
dos meus algozes que te vão matar!

À campa vamos! Ai! depois da morte,
quem sabe a sorte a que estas almas vão!...
Que anseio! filha! que soldado abismo!
tu... sem batismo! e eu... sem confissão!

Não! Deus é pai! somente aos maus condena!
Foi por quem pena que penou Jesus!
Sejam meus prantos do batismo as águas!...
Deus! pelas mágoas que te deu a cruz!

Vai, filha! os anjos te recebem ledos!
guarda os segredos que me ouviste aqui.
Quando avistares do Senhor a sede,
por mim lhe pede, que também morri!

Vai! Dize aos anjos que te dêem seus cantos,
por estes prantos que meus olhos têm!
e se em mim perdes maternal ternura,
a Virgem pura que te seja mãe!...

Ai! flor de neve com dourada coma!
que alvor! que aroma! se não perde aqui!
Ai! rosa minha de matiz vestida;
que amor! que vida! que eu sonhei por ti!

Teu pai, rojado por inglória senda,
que vida horrenda viverá também!...
rico inda ontem, poderoso e nobre!
hoje tão pobre, que nem nome tem!

Eu fui a sombra que toldou de escuro
todo o futuro que o verá viver!...
Eu fui a estrela que em lugar do norte,
lhe aponta a morte que o fará morrer!

Aos meus perdôo, que me deram tratos;
raça de ingratos, com que eu vivi!
Não choro os dias que sonhei serenos...
que em paga ao menos morrerei por ti.

A ti, a ele, deixarei somente,
num beijo ardente o derradeiro adeus!...
Correi, algozes, já me não confranjo!
mártir e anjo, têm direito aos céus!"

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