Escritas

Lista de Poemas

II [Um coração boxeur que bate, bate

Um coração boxeur que bate, bate
mas convenhamos gosta de apanhar
e bater pernas pelo bulevar:
assim é o meu, desgovernado iate

— não sou piloto para o tripular.
Onde céus ele vai? tatibitate
atrás de um outro coração que o mate
ou lhe acenda uma luz crepuscular

antes que a noite finalmente caia,
noite definitiva carta escrita
em braille, noite noiva predileta,

antes que o dia saia e torne maya
tudo isso que passa por estrita
realidade, dor, desejo, meta.


In: LEMOS, Tite de. Caderno de sonetos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988
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Altamira's gift

Esboça um caçador a sua caça
a cores sobre os muros de uma gruta.
No exterior a nuvem chumbo passa
mãe grávida do seu rebento, a Bruta
Chuva, presságio de celestes raivas
das estações nascendo sem cessar.
O escuro firmamento faiscava.
Criaturas aéreas bebem ar
que um criador lhes serve qual champagne
nos profundos copinhos. Não me estranhe,
disse-me face a face a onça pintada
nas minhas quatro ou mais interiores
paredes. Eu apenas sou seu lado
do avesso a te seguir aonde fores

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Tu és o cavaleiro eu sou a montaria

Tu és o cavaleiro eu sou a montaria
às vezes me castigas e outras vezes não
vou cegamente aonde a Tua mão me guia
mas em segredo me pergunto aonde vão
essas desconhecidas Tuas rotas minhas
eu preferia ser apenas o cantor
o jardineiro um leopardo uma florzinha
capaz de em cada outono sucumbir de amor
dizem que és um vingador Te chamam Zorro
uns outros Te nomeiam Christian Rosenkreutz
me humilhas sei e me maltratas mas eu morro
da Tua ausência mais do que quando me açoitas
ah eu desejaria uivar gemer e calo
por ser dos duros deuses todos o cavalo
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áspera Prisma lápice cria'anza

áspera Prisma lápice cria'anza
la flecsa sena pied ah! senz' aPap
a imagignota iu velo, cino, manza
lar a mañan lefeu los fus deh lap

? ah , ssim, Uz prism a sphera vossos olhos
des fhh' olhamsse çus brutos vanall'ar
y oyo loero siam lahor come si molhan
as cquerras infinitamente du vagar

os músculos extrêmeros a musa
quem trouxe o ver a nua nau a única
rainha do oceano acolhedor e fundo

nozes loslazos vozla te enlaçassem
eu sou teu caçador e eu sou a tua casa
e si un undécimo varvar das Portas

: prisma. Ver



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um último poema é uma fragata

um último poema é uma fragata
avizinhando-se do cais do porto
uma canção que nos consola e mata
alegremente o coração já morto
lembra-me gypsies, margaridas; chuvas
ressurreições. A brisa bruxa acorda
as donzelas princesas e as viúvas
senhoras dos seus mestres e seus corpos
os adeuses têm gosto de suspiros
são doces brevidades souvenirs
ursinhos de pelúcia esquecimentos.
Quando nos visitar a inconhecida
visitante estaremos, longe, ausentes
e ao mesmo tempo sempre, sempre, aqui.

.
.
.
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God (short) story

Tudo o que eu como
e tudo pelo que eu sou comido.
A essência das flores
e a flor da essência das flores.
O que eu compreendo, que não é nada,
e o que eu não compreendo, que não é nada também.
O rinoceronte
e o unicórnio.
As estações do ano
e a paralisia infantil.
A boca das coisas
e o ânus das coisas.
A carícia catatônica
e o elegantíssimo pós-escrito de Gustave Flaubert.
O bagulho embrulhado no jornal do dia
e o imortal reflexo do luar nas águas da baía.
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Fiducai. Confissões

1.

Meu pai morreu onde viveu, no mesmo quarto
por toda parte
havia um cheiro de charuto

2.

_ Do your own thing, man.
_ You do your own thing.

3.

Habito dois mundos.
O primeiro mundo e o segundo

4.

Já de meu pai, pequeno
herdei o ardor de precipícios
o gosto dos abismos

5.

Eu posso ser um impostor.
Eu sou.

6.

Posso não ser um impostor.
Eu sou.

7.

Não ser eu.
E não sou.

8.

Ser eu.
Sim.

9.

pela última vez
a voz das fontes mana sem cessar
pela última vez

diz oh diz
diz o poema
até silenciar

10.

diz o poema
até dizer

xAma

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como algum astro mestre

como algum astro mestre
apontado nos mapas celestes

um rayito de sol
tostando a testa dos homens sós

como um barco à deriva
uma lady, uma dona, uma diva

uma lasca de noz
no agridoce metal da sua voz

um afago nos ramos mais altos das árvores
uma rosa na sala das armas

como um vitral
infiltrado de luz natural

aeroplano em céu noturno
a letra a de aurora, puro ouro

O ouro. Para Antonio Carlos Jobim


In: LEMOS, Tite de. Corcovado Park. Pref. Armando Freitas Filho. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979. (Poesia brasileira)
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Irmandade

O meu irmão habita os pântanos e os bosques
ermos, os fundos dos quintais onde não vai
ninguém. Eu tive a mesma mãe e o mesmo pai
mas gosto mais das aquarelas dos pomares,
dos lugares aéreos, de coisas assim.
Eu toco címbalo e marimba, ele mergulha
nas oceânicas igrejas, conchas, símbolos
significando nada além dos seus barulhos
e é um devorador de ostras e escraviza
toda mulher que ama, todos os dragões
que doma; e o meu esporte é cavalgar a brisa
passageira. Seremos para sempre dois
— como o chá e o limão, a coca-cola e o rum —
até que o acaso nos convide a ser só um


In: LEMOS, Tite de. Marcas do Zorro. Pref. Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979. (Poiesis)
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Marcas do Zorro

Tu és o cavaleiro eu sou a montaria
às vezes me castigas e outras vezes não
vou cegamente aonde a Tua mão me guia
mas em segredo me pergunto aonde vão
essas desconhecidas Tuas rotas minhas
eu preferia ser apenas o cantor
o jardineiro um leopardo uma florzinha
capaz de em cada outono sucumbir de amor
dizem que és um vingador Te chamam Zorro
uns outros Te nomeiam Christian Rosenkreutz
me humilhas sei e me maltratas mas eu morro
da Tua ausência mais do que quando me açoitas
ah eu desejaria uivar gemer e calo
por ser dos duros deuses todos o cavalo


In: LEMOS, Tite de. Marcas do Zorro. Pref. Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979. (Poiesis)
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