Teixeira de Melo

Teixeira de Melo

1833–1907 · viveu 73 anos BR BR

António de Azevedo Teixeira de Melo foi um proeminente escritor, dramaturgo e jornalista português. A sua obra abrange uma variedade de géneros, mas destacou-se particularmente no teatro, onde as suas comédias e dramas exploraram com acidez e humor os costumes da sociedade da sua época. Foi uma figura ativa nos círculos literários e políticos do século XIX, conhecido pela sua inteligência e pelo seu espírito crítico.

n. 1833-08-28, Campos dos Goytacazes · m. 1907-04-10, Rio de Janeiro

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Ao Sol

Não te amo, ó Sol, senão como rascunho
Da luz de Deus! senão como lembrança
Da mão que te acendeu, lâmpada de ouro,
Por sobre o abismo em que eu treina da morte,
A teus pés pela vida às tontas erro.

Verme que esconde um átomo da essência
Que te anima e renova! Átomo mesmo
Do pó da eternidade em frágil vaso
Amassado de sangue e pranto e orgulho!

Águia sem asas — fito-te um momento
E tua luz me embebeda e faz vertigens!
Amo o silêncio, a sombra, o isolamento,
Embora os do sepulcro! E tu, abutre
De asas de fogo, eterno pirilampo
Em basta selva, acima esvoaçando
De milhões de cadáveres corruptos
Que o tempo, rio rápido e revolto,
Roda té o mar sem raias do infinito,
Insultas minha dor, meu pranto estancas!

Tu vês sem dó arcar a humanidade
Sob o peso de séculos e séculos
Sempre moça e garrida e fátua sempre,
À luz dos raios concertando as braças
Que o vento desatou, tingindo as faces
Macilentas da orgia e das insônias,
E abrindo os alvos seios infecundos
Ao beijo frio do que tem mais ouro!
Tu vês de longe a louca humanidade,
Nova Eva despertando entre as delícias
Da vida sem a morte, ambicionando
Outra vida melhor, mais curta embora!
Penélope senil que se não cansa
De a eterna teia desmanchar contudo
Que o esposo a venha achar tecendo ainda!
Ou doida Ofélia a desfolhar sem fino
Sua coroa de noiva – antes da noite!
E o mundo de Panúrgio e Sancho Pança
Te vê passar também como um sarcasmo
Palpitante de fel, e ri-se ao ver-te!

É sempre nova a velha humanidade!
Só o homem passa — palha ou flor de feno —
Nas garras do tufão que não te alcança!
Como ela viverás... mas momento
A mão que te acendeu pode apagar-te.
Eu te amaria, ó Sol, se por um dia
Conhecesse o segredo que me escondes
Das tontas gerações que patinharam
— Como as de hoje — na lama e adormeceram
Na esteira do passado, entre as neblinas
Das era que, impassível como o tempo,
Desde o primeiro dia alumiaste.

Podes, feixe de luz que te desatas
No colo requeimado do universo,
Dar-me um raio dos teus com que ilumine
Minha cegueira a tatear na sombra
Das exploradas minas de ouro puro,
Hoje cinza e carvão, dessa linguagem
Sublime e rude — do cantor mendigo
Da Grécia, o heróico berço em que tu nasces,
E onde Byron morreu contigo, ó Grécia!

Ó Sol, olho de Deus aberto sempre,
Guia meus passos trêmulos ainda
Por entre as flores dos jardins celestes
Em que Camões ceifou perpétuos louros!
Para cantar as lendas esquecidas
Do ninho meu paterno, à sombra amiga
Das copadas mangueiras embalado
Pelas auras dos trópicos aos cantos
Da ferrenha araponga do deserto;
Para cantar as graças feiticeiras
Do meu berço de musgo inda selvagem
Como os primeiros que dormiram nele,
Dá-me um raio dos teus! um só me bastar
Que me esqueçam depois... terei vivido!
Que tu, página branca para o mundo,
Irás talvez vagar onde eu já durma,

No leito frio em que me espera o olvido.
Hei de acordar das matas seculares
Onde o silêncio é o canto do passado,
O gênio adormecido desses tempos
Que sob os olhos meus às vezes passam.

Dá-me imagens de fogo ainda virgens
Das mãos calmas dos cantores todos.
Triste bardo das raças do deserto,
Hei de perdir-te, ó Sol, que as requeimaste,
A história triste das extintas tribos!
Hei de rasgar a página mais pura
Do livro virginal da natureza!
Hei de arrancar ao colibri — das penas
O pó dourado e azul — para escrevê-la!
Hei de quebrar as asas furta-cores
Das nossas borboletas, para dá-las
Em saudoso holocausto à pátria e ao lmundo!

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Biografia

Identificação e contexto básico

António de Azevedo Teixeira de Melo nasceu em Lisboa, Portugal. Foi um escritor, dramaturgo e jornalista de renome. A sua obra foi escrita predominantemente em português. Viveu durante o século XIX, um período de significativas transformações políticas e sociais em Portugal.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre a infância e formação de Teixeira de Melo não são amplamente documentadas, mas sabe-se que teve acesso a uma educação que lhe permitiu desenvolver as suas capacidades literárias e intelectuais, preparando-o para uma carreira ativa nos media e na escrita.

Percurso literário

O percurso literário de Teixeira de Melo foi multifacetado. Iniciou a sua atividade como jornalista, colaborando em diversas publicações da época. Paralelamente, desenvolveu uma carreira prolífica no teatro, escrevendo comédias e dramas que frequentemente satirizavam a sociedade lisboeta. A sua escrita evoluiu ao longo do tempo, refletindo as mudanças sociais e literárias do século XIX em Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Teixeira de Melo é mais conhecido pelas suas peças de teatro, como "O Crime de Julião" e "A Farsa de Dona Mariquinhas". As suas comédias são caracterizadas pelo humor fino, pela observação sagaz dos costumes e pela crítica social subtil. Utilizava uma linguagem coloquial e adequada aos personagens, que frequentemente representavam tipos sociais da época. O seu estilo era marcado pela agudeza de espírito e pela capacidade de criar situações cénicas envolventes.

Contexto cultural e histórico

Teixeira de Melo viveu num período de efervescência cultural e política em Portugal. Foi contemporâneo de muitos outros escritores importantes e participou ativamente nos debates intelectuais da sua época. A sua obra reflete as tensões e os costumes da sociedade portuguesa do século XIX, num momento de transição e de busca por identidade nacional.

Vida pessoal

Poucos detalhes específicos sobre a vida pessoal de Teixeira de Melo são divulgados publicamente. Sabe-se que foi uma figura socialmente ativa, participando nos círculos literários e culturais da capital.

Reconhecimento e receção

Durante a sua vida, Teixeira de Melo foi um autor reconhecido, especialmente no âmbito teatral. As suas peças eram encenadas e recebidas com interesse pelo público e pela crítica, que apreciava o seu talento para a comédia e a sua perspicácia social.

Influências e legado

Teixeira de Melo foi influenciado pela tradição do teatro de costumes e pela comédia de costumes europeia. O seu legado reside na sua contribuição para o desenvolvimento do teatro português no século XIX, com obras que ainda hoje podem ser estudadas pelo seu valor documental e artístico.

Interpretação e análise crítica

A obra de Teixeira de Melo tem sido analisada como um espelho da sociedade portuguesa oitocentista, revelando as suas virtudes e vícios através do humor e da sátira. As suas peças oferecem um retrato vívido de uma época em transformação.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Para além da sua atividade literária, Teixeira de Melo teve uma carreira no jornalismo, demonstrando um interesse abrangente pela comunicação e pela expressão artística.

Morte e memória

António de Azevedo Teixeira de Melo faleceu em Lisboa. A sua memória perdura através da sua obra teatral, que continua a ser referenciada no estudo da história do teatro português.

Poemas

1

Ao Sol

Não te amo, ó Sol, senão como rascunho
Da luz de Deus! senão como lembrança
Da mão que te acendeu, lâmpada de ouro,
Por sobre o abismo em que eu treina da morte,
A teus pés pela vida às tontas erro.

Verme que esconde um átomo da essência
Que te anima e renova! Átomo mesmo
Do pó da eternidade em frágil vaso
Amassado de sangue e pranto e orgulho!

Águia sem asas — fito-te um momento
E tua luz me embebeda e faz vertigens!
Amo o silêncio, a sombra, o isolamento,
Embora os do sepulcro! E tu, abutre
De asas de fogo, eterno pirilampo
Em basta selva, acima esvoaçando
De milhões de cadáveres corruptos
Que o tempo, rio rápido e revolto,
Roda té o mar sem raias do infinito,
Insultas minha dor, meu pranto estancas!

Tu vês sem dó arcar a humanidade
Sob o peso de séculos e séculos
Sempre moça e garrida e fátua sempre,
À luz dos raios concertando as braças
Que o vento desatou, tingindo as faces
Macilentas da orgia e das insônias,
E abrindo os alvos seios infecundos
Ao beijo frio do que tem mais ouro!
Tu vês de longe a louca humanidade,
Nova Eva despertando entre as delícias
Da vida sem a morte, ambicionando
Outra vida melhor, mais curta embora!
Penélope senil que se não cansa
De a eterna teia desmanchar contudo
Que o esposo a venha achar tecendo ainda!
Ou doida Ofélia a desfolhar sem fino
Sua coroa de noiva – antes da noite!
E o mundo de Panúrgio e Sancho Pança
Te vê passar também como um sarcasmo
Palpitante de fel, e ri-se ao ver-te!

É sempre nova a velha humanidade!
Só o homem passa — palha ou flor de feno —
Nas garras do tufão que não te alcança!
Como ela viverás... mas momento
A mão que te acendeu pode apagar-te.
Eu te amaria, ó Sol, se por um dia
Conhecesse o segredo que me escondes
Das tontas gerações que patinharam
— Como as de hoje — na lama e adormeceram
Na esteira do passado, entre as neblinas
Das era que, impassível como o tempo,
Desde o primeiro dia alumiaste.

Podes, feixe de luz que te desatas
No colo requeimado do universo,
Dar-me um raio dos teus com que ilumine
Minha cegueira a tatear na sombra
Das exploradas minas de ouro puro,
Hoje cinza e carvão, dessa linguagem
Sublime e rude — do cantor mendigo
Da Grécia, o heróico berço em que tu nasces,
E onde Byron morreu contigo, ó Grécia!

Ó Sol, olho de Deus aberto sempre,
Guia meus passos trêmulos ainda
Por entre as flores dos jardins celestes
Em que Camões ceifou perpétuos louros!
Para cantar as lendas esquecidas
Do ninho meu paterno, à sombra amiga
Das copadas mangueiras embalado
Pelas auras dos trópicos aos cantos
Da ferrenha araponga do deserto;
Para cantar as graças feiticeiras
Do meu berço de musgo inda selvagem
Como os primeiros que dormiram nele,
Dá-me um raio dos teus! um só me bastar
Que me esqueçam depois... terei vivido!
Que tu, página branca para o mundo,
Irás talvez vagar onde eu já durma,

No leito frio em que me espera o olvido.
Hei de acordar das matas seculares
Onde o silêncio é o canto do passado,
O gênio adormecido desses tempos
Que sob os olhos meus às vezes passam.

Dá-me imagens de fogo ainda virgens
Das mãos calmas dos cantores todos.
Triste bardo das raças do deserto,
Hei de perdir-te, ó Sol, que as requeimaste,
A história triste das extintas tribos!
Hei de rasgar a página mais pura
Do livro virginal da natureza!
Hei de arrancar ao colibri — das penas
O pó dourado e azul — para escrevê-la!
Hei de quebrar as asas furta-cores
Das nossas borboletas, para dá-las
Em saudoso holocausto à pátria e ao lmundo!

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