Escritas

Testamento

Ana Luísa Amaral
Vou partir de avião
E o medo das alturas misturado comigo
Faz-me tomar calmantes
E ter sonhos confusos

Se eu morrer
Quero que a minha filha não se esqueça de mim
Que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada
E que lhe ofereçam fantasia
Mais que um horário certo
Ou uma cama bem feita

Dêem-lhe amor e ver
Dentro das coisas
Sonhar com sóis azuis e céus brilhantes
Em vez de lhe ensinarem contas de somar
E a descascar batatas

Preparem minha filha para a vida
Se eu morrer de avião
E ficar despegada do meu corpo
E for átomo livre lá no céu

Que se lembre de mim
A minha filha
E mais tarde que diga à sua filha
Que eu voei lá no céu
E fui contentamento deslumbrado
Ao ver na sua casa as contas de somar erradas
E as batatas no saco esquecidas
E íntegras.

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Comentários (7)

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Ricardo Reis
Ricardo Reis
2023-04-18

Dito hoje…. que não há poema mais bonito que este. Nem mesmo o meus, quanto mais os do meu compadre Álvaro de Campos. Toca na alma e vice-versa.

D.Dinis
D.Dinis
2023-04-18

Antes de vocês todos, estava eu!

Manuel Alegre
Manuel Alegre
2023-04-18

bom poema, mas eu ainda estou vivo

Maria
Maria
2022-08-07

Está na lápide da minha amiga.

cleiton MLKdoido
cleiton MLKdoido
2022-04-19

poema baseado em factos reais :()