Escritas

Qual é a tarde por achar

Fernando Pessoa Ano: 606
Qual é a tarde por achar
Em que teremos todos razão
E respiraremos o bom ar
Da alameda sendo Verão,

Ou, sendo Inverno, baste estar
Ao pé do sossego ou do fogão?
Qual é a tarde por voltar?
Essa tarde houve, e agora não.

Qual é a mão cariciosa
Que há-de ser enfermeira minha –
Sem doenças minha vida ousa –
Oh, essa mão é morta e osso...
Só a lembrança me acarinha
O coração com que não posso.


20/01/1929
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