Ano: 20620
Uma ciência que sabe tão pouco de sexo quanto de arte espalhou o boato de que a sexualidade do artista é “sublimada” na obra de arte. Poupar o bordel, eis uma bela finalidade para a arte! Ao poupar a sublimação por meio de uma obra de arte, a finalidade do bordel é bem mais refinada. O quanto o procedimento dos artistas, não considerada sua prolixidade, é arriscado em seu efeito sobre os receptores, é algo provado justamente pelo caso do notável compositor que a referida ciência gosta de citar como exemplo de sublimação bem-sucedida. Os ouvintes de sua música sentem-se estimulados de tal modo pela sexualidade nela sublimada que muitas vezes não lhes resta outra saída do que aquela que o artista evitou, a não ser que eles próprios sejam capazes de fazer uma sublimação a tempo. Se o artista tivesse escolhido o caminho mais simples, esse efeito teria sido poupado aos ouvintes. Assim, por meio do mau hábito dos artistas de sublimar a sexualidade, esta é liberada de vez, e um assunto que deveria ficar restrito à vida privada do artista degenera num escândalo público.