Ano: 20620
Observei que as borboletas estão em extinção. Ou será que elas são vistas apenas pelas crianças? Quando eu tinha dez anos, convivia nos prados de Weidlingau exclusivamente com almirantes-vermelhos. Posso dizer que foi o convívio mais soberbo de minha vida. Antíopas, pavões-reais-diurnos e borboletas-limão também coloriam a vida da infância. Vanessa io, Vanessa cardui — vanitas vanitatum! Quando voltei depois de alguns anos, todas tinham desaparecido. O sol do meio-dia vibrava como antes, mas não se via nenhum fulgor colorido; em compensação, havia pedaços de jornal pelo prado. Mais tarde, fiquei sabendo que a madeira dos bosques fora utilizada para produzir papel de impressão e que o excesso de informação não havia deixado muitas linhas para as borboletas. Um amigo de nosso jornal nos mandou a última borboleta e um de nossos colaboradores teve a oportunidade de espetá-la na pena e lhe perguntar pelas causas de sua solidão. O mundo foge das cores da personalidade, as pessoas se protegem ao se organizarem. Apenas as borboletas deixaram de se organizar. É por isso que agora vemos redatores e folhetinistas iridescentes bebericando nos cálices das flores. Mesmo as monótonas borboletas-da-couve, com as quais o jornalismo, graças a um certo parentesco, ainda poderia ter entrado num acordo, tiveram de fugir. A luta de extermínio contra as criaturas aladas significa o triunfo da cultura do jornal. As borboletas e as mulheres, a beleza e o espírito, a natureza e a arte passaram a sentir o fato de uma edição dominical ter cento e cinquenta páginas. A humanidade persegue as borboletas com mata-moscas. Ela esfrega a poeira colorida dos dedos. Eles precisam estar limpos para tocar na tinta de impressão.
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