Ano: 20620
Sem dúvida, o artista é diferente. Mas justamente por isso ele deve ser igual aos outros em seu exterior. Ele só pode permanecer solitário se desaparecer na multidão. Se chamar a atenção sobre si através de alguma peculiaridade, ele se torna vulgar e coloca os perseguidores em seu encalço. Quanto mais tudo dá razão ao artista para ser diferente, tão mais necessário é que ele se sirva dos trajes da média como um mimetismo. A aparência chamativa é o alvo da embriaguez. Esta, normalmente zombada, julga-se alinhada e superior quando se compara com a excentricidade de cabelos longos. Mesmo o bêbado do qual o populacho ri, ri do homem que usa um casaco de bufão. Desleixar-se intencionalmente para se destacar da média, usar roupas sujas como uma insígnia da arte e da ciência, sacudir uma cabeleira despenteada sobre o absurdo da ordem social — um ideal dos poetas andarilhos medievais, há tempos abandonado pelos nobres e hoje ao alcance de qualquer pequeno-burguês. A verdadeira boemia não faz mais aos filisteus a concessão de irritá-los, e os verdadeiros ciganos vivem segundo um relógio que nem sequer precisa ser roubado. A pobreza continua não sendo uma vergonha, mas a sujeira não é mais uma honra. A “mãe estrada” renega seus filhos; mesmo ela já é mais cuidada hoje em dia.