A Cena do ódio
Almada Negreiros
(excerto final)
(... ) Larga a cidade masturbadora, febril,
rabo decepado de lagartixa,
labirinto cego de toupeiras,
raça de ignĂłbeis mĂopes, tĂsicos, tarados,
anĂȘmicos, cancerosos e arseniados!
Larga a cidade!
Larga a infĂąmia das ruas e dos boulevards,
esse vaivĂ©m cĂnico de bandidos mudos,
esse mexer esponjoso de carne viva,
esse ser-lesma nojento e macabro,
esse S ziguezague de chicote autofustigante,
esse ar expirado e espiritista,
esse Inferno de Dante por cantar,
esse ruĂdo de sol prostituĂdo, impotente e velho,
esse silĂȘncio pneumĂŽnico
de lua enxovalhada sem vir a lavadeira
Larga a cidade e foge!
Larga a cidade!
Vence as lutas da famĂlia na vitĂłria de a deixar.
Larga a casa, foge dela, larga tudo!
Nem te prendas com lĂĄgrimas que lĂĄgrimas sĂŁo cadeias!
Larga a casa e verĂĄs â vai-se-te o Pesadelo!
A famĂlia Ă© lastro: deita-a fora e vais ao cĂ©u!
Mas larga tudo primeiro, ouviste?
Larga tudo!
â Os outros, os sentimentos, os instintos,
e larga-te a ti também, a ti principalmente!
Larga tudo e vai para o campo
e larga o campo também, larga tudo!
â PĂ”e-te a nascer outra vez!
NĂŁo queiras ter pai nem mĂŁe,
nĂŁo queiras ter outros nem InteligĂȘncia!
A InteligĂȘncia Ă© o meu cancro:
eu sinto-A na cabeça com falta de ar!
A InteligĂȘncia Ă© a febre da Humanidade
e ninguém a sabe regular!
E jĂĄ hĂĄ InteligĂȘncia a mais: pode parar por aqui!
Depois pÔe-te a virar sem cabeça,
vĂȘ sĂł o que os olhos virem,
cheira os cheiros da Terra,
come o que a Terra der,
bebe dos rios e dos mares,
â pĂ”e-te na Natureza!
Ouve a Terra, escuta-A.
A Natureza Ă vontade sĂł sabe rir e cantar!
Depois pÔe-te à coca dos que nascem
e nĂŁo os deixes nascer.
Vai depois pla noite nas sombras
e rouba a toda a gente a InteligĂȘncia
e raspa-lhes a cabeça por dentro
coas tuas unhas e cacos de garrafas,
bem raspado, sem deixar nada,
e vai depois depressa, muito depressa,
sem que o sol te veja,
deitar tudo no mar onde haja tubarÔes!
Larga tudo e a ti também!
Mas tu nem vives nem deixas viver os mais,
CrĂĄpula do EgoĂsmo, cartola despanta-pardais!
Mas hĂĄs de pagar-Me a febre-rodopio
novelo emaranhado da minha dor!
Mas hĂĄs de pagar-Me a febre-calafrio
abismo-descida de Eu nĂŁo querer descer!
HĂĄs de pagar-Me o Abismo e a Morfina!
Hei de ser cigana da tua sinal
Hei de ser a bruxa do teu remorso!
Hei de desforra-dor cantar-te a buena-dicha
em ĂĄguas fortes de TrĂłia
e nos poemas de Poe!
Hei de feiticeira a galope na vassoura
largar-te os meus lagartos e a Peçonha!
Hei de vara mĂĄgica encantar-te arte de ganir!
Hei de reconstruir em ti a escravatura negra!
Hei de despir-te a pele a pouco e pouco
e depois na carne viva deitar fel,
e depois na carne viva semear vidros,
semear gumes,
lumes,
e tiros,
Hei de gozar em ti as poses diabĂłlicas
dos teatrais venenos trĂĄgicos do persa Zoroastro!
Hei de rasgar-te as virilhas com forquilhas e croques,
e desfraldar-te nas canelas mirradas
o negro pendĂŁo dos piratas!
Hei de corvo marinho beber-te os olhos vesgos!
Hei de bĂłia do Destino ser em brasa
e tu nåufrago das galés sem horizontes verdes!
E mais do que isto ainda, muito mais:
Hei de ser a mulher que tu gostes,
hei de ser Ela sem te dar atenção!
Ah! que eu sinto claramente que nasci
de uma praga de ciĂșmes.
Eu sou as sete pragas sobre o Nilo
e a Alma dos BĂłrgias a penar!
(... ) Larga a cidade masturbadora, febril,
rabo decepado de lagartixa,
labirinto cego de toupeiras,
raça de ignĂłbeis mĂopes, tĂsicos, tarados,
anĂȘmicos, cancerosos e arseniados!
Larga a cidade!
Larga a infĂąmia das ruas e dos boulevards,
esse vaivĂ©m cĂnico de bandidos mudos,
esse mexer esponjoso de carne viva,
esse ser-lesma nojento e macabro,
esse S ziguezague de chicote autofustigante,
esse ar expirado e espiritista,
esse Inferno de Dante por cantar,
esse ruĂdo de sol prostituĂdo, impotente e velho,
esse silĂȘncio pneumĂŽnico
de lua enxovalhada sem vir a lavadeira
Larga a cidade e foge!
Larga a cidade!
Vence as lutas da famĂlia na vitĂłria de a deixar.
Larga a casa, foge dela, larga tudo!
Nem te prendas com lĂĄgrimas que lĂĄgrimas sĂŁo cadeias!
Larga a casa e verĂĄs â vai-se-te o Pesadelo!
A famĂlia Ă© lastro: deita-a fora e vais ao cĂ©u!
Mas larga tudo primeiro, ouviste?
Larga tudo!
â Os outros, os sentimentos, os instintos,
e larga-te a ti também, a ti principalmente!
Larga tudo e vai para o campo
e larga o campo também, larga tudo!
â PĂ”e-te a nascer outra vez!
NĂŁo queiras ter pai nem mĂŁe,
nĂŁo queiras ter outros nem InteligĂȘncia!
A InteligĂȘncia Ă© o meu cancro:
eu sinto-A na cabeça com falta de ar!
A InteligĂȘncia Ă© a febre da Humanidade
e ninguém a sabe regular!
E jĂĄ hĂĄ InteligĂȘncia a mais: pode parar por aqui!
Depois pÔe-te a virar sem cabeça,
vĂȘ sĂł o que os olhos virem,
cheira os cheiros da Terra,
come o que a Terra der,
bebe dos rios e dos mares,
â pĂ”e-te na Natureza!
Ouve a Terra, escuta-A.
A Natureza Ă vontade sĂł sabe rir e cantar!
Depois pÔe-te à coca dos que nascem
e nĂŁo os deixes nascer.
Vai depois pla noite nas sombras
e rouba a toda a gente a InteligĂȘncia
e raspa-lhes a cabeça por dentro
coas tuas unhas e cacos de garrafas,
bem raspado, sem deixar nada,
e vai depois depressa, muito depressa,
sem que o sol te veja,
deitar tudo no mar onde haja tubarÔes!
Larga tudo e a ti também!
Mas tu nem vives nem deixas viver os mais,
CrĂĄpula do EgoĂsmo, cartola despanta-pardais!
Mas hĂĄs de pagar-Me a febre-rodopio
novelo emaranhado da minha dor!
Mas hĂĄs de pagar-Me a febre-calafrio
abismo-descida de Eu nĂŁo querer descer!
HĂĄs de pagar-Me o Abismo e a Morfina!
Hei de ser cigana da tua sinal
Hei de ser a bruxa do teu remorso!
Hei de desforra-dor cantar-te a buena-dicha
em ĂĄguas fortes de TrĂłia
e nos poemas de Poe!
Hei de feiticeira a galope na vassoura
largar-te os meus lagartos e a Peçonha!
Hei de vara mĂĄgica encantar-te arte de ganir!
Hei de reconstruir em ti a escravatura negra!
Hei de despir-te a pele a pouco e pouco
e depois na carne viva deitar fel,
e depois na carne viva semear vidros,
semear gumes,
lumes,
e tiros,
Hei de gozar em ti as poses diabĂłlicas
dos teatrais venenos trĂĄgicos do persa Zoroastro!
Hei de rasgar-te as virilhas com forquilhas e croques,
e desfraldar-te nas canelas mirradas
o negro pendĂŁo dos piratas!
Hei de corvo marinho beber-te os olhos vesgos!
Hei de bĂłia do Destino ser em brasa
e tu nåufrago das galés sem horizontes verdes!
E mais do que isto ainda, muito mais:
Hei de ser a mulher que tu gostes,
hei de ser Ela sem te dar atenção!
Ah! que eu sinto claramente que nasci
de uma praga de ciĂșmes.
Eu sou as sete pragas sobre o Nilo
e a Alma dos BĂłrgias a penar!
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