Escritas

IV - Desviando o Rio

Pablo Neruda Ano: 1650
Foi no verão da Romênia, aço
verde dos pinhais para o mar,
e para o mar descobri que caminhava um rio:

o Danúbio amarelo da Romênia.

Mas não caminhava
por desígnio de rio,
mas porque o homem ia-lhe abrindo leito.
O homem o empurrava,
o atacava com mãos violentas
que socavavam a terra.
A dinamite levantava
um ramo de fumo de cor violeta.
Estremecia a cintura
do rio, e caminhava.
Por outras regiões marchava.
Sem querer ia andando,
fertilizando areias,
parindo fruta e trigo.

O rio não queria,
mas, por trás, o homem
o empurrava,
açoitava-lhe as ancas,
golpeava-o na espuma,
frenava-o e vencia,
e para o outro lado do mar marchava o rio
e com o rio marchava a vida.

Eu vi os rapazes manchados
de pó e suor, pequeninhos
diante da terra hostil e estéril,
orgulhosos e pequeninhos,
abrindo o caminho do rio,
e mostrando-me a central
futura da força, quando
a água desse luz
naquelas regiões negras.
Vi-os, toquei-os. Eu creio
que os grandes deuses de antanho
se assemelhavam aos meninos
sorridentes que dirigiam
o curso amarelo do rio
para que amanhã amanheçam
as novas uvas na terra.
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