Escritas

Prólogo - Tendes Que Ouvir-Me

Pablo Neruda Ano: 1650
Eu fui cantando errante,
entre as uvas
da Europa e
sob o vento,
sob o vento na Ásia.

O melhor das vidas
e a vida,
a doçura terrestre,
a paz pura,
fui recolhendo, errante,
recolhendo.

O melhor de uma terra
e outra terra
levantei em minha boca
com meu canto:
a liberdade do vento,
a paz entre as uvas.

Pareciam os homens
inimigos,
mas a mesma noite
os cobria
e era uma só claridade
que os despertava:
a claridade do mundo.

Eu entrei nas casas quando
comiam na mesa,

vinham das fábricas,
riam ou choravam.

Todos eram iguais.

Todos tinham olhos
para a luz, buscavam
os caminhos.

Todos tinham boca,
cantavam
para a primavera.

Todos.

Por isso
eu busquei entre as uvas
e o vento
o melhor dos homens.

Agora tendes de ouvir-me.
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