Escritas

O Doutor Ausente

Carlos Drummond de Andrade Ano: 336
Nosso delegado
não é de prender.
Prefere, sossegado,
ler.

Clássicos latinos,
velhos portugueses.
A vida ficou sendo
estante.

Entre Virgílio e Fernão Lopes
a garrafa clara
cheia vazia cheia
contém o mundo retificado.

Nosso delegado
nasceu para outros fins
ausentes do viável.

Não escuta o cabo
dizer que na Rua de Baixo
acontece o diabo.

A estante, a garrafa semioculta,
a cavalgada dos possíveis impossíveis.
Matou! Roubou! Defloramento…
Deixa pra lá.

Deixa bem pra lá de Ovídio,
enquanto a bela (ou bela foi um dia) Elzira
lhe afaga os bigodes desenganados.

O delegado não prende.
O delegado está preso
à estante repetida, à sempre garrafa,
ao colo, à coleira
de Elzirardente consolatória.
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