Primavera Material
António Ramos Rosa
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Ano: 5748
É a noite em pleno dia. Uma luva que avança, esteira invisível. A mão que não vê o sulco, a planta do pé que assenta sobre a delgada película.
É a terra vazia, a língua que se enrola, o olhar inerte. O corpo que procura a palavra. A palavra do corpo que entra no espaço ilimitado. Todas as árvores se dispersam. As pálpebras tropeçam nas ramagens de uma floresta deserta. A fome de uma claridade nua. Um objecto que centre o espaço — promontório que avança na bruma e se submerge. Terra, nova terra, novo espaço — eu vi os troncos, os arbustos em chamas, as clareiras do verde. A primavera aqui é negra, mas eu vi a primavera das cores, respirei-lhe o hálito delicado, vi uma árvore extática coberta de lâmpadas finíssimas. Aqui é negro ou é branco e eu vou formando o sopro obscuro, o tapete que enfuno com a minha respiração entrecortada. Quero retratar-te a terra abrasada, dar-te o espelho do instante luminoso, prolongá-lo nas sequências do teu amplo olhar. É toda a terra viva que eu quero despertar na tua língua e nos teus músculos. Tropeço em membros duros e ásperos, em materiais macios e falsos, em espelhos que me aprisionam. Quero abrir-te a vasta clareira onde os objectos brilham com as suas massas sólidas e as suas nítidas e fascinantes presenças, quero rasgar-te as avenidas do espaço, o grande canto do olhar oferecido ao mundo, a áspera e triunfante materialidade da primavera verdadeira.
É a terra vazia, a língua que se enrola, o olhar inerte. O corpo que procura a palavra. A palavra do corpo que entra no espaço ilimitado. Todas as árvores se dispersam. As pálpebras tropeçam nas ramagens de uma floresta deserta. A fome de uma claridade nua. Um objecto que centre o espaço — promontório que avança na bruma e se submerge. Terra, nova terra, novo espaço — eu vi os troncos, os arbustos em chamas, as clareiras do verde. A primavera aqui é negra, mas eu vi a primavera das cores, respirei-lhe o hálito delicado, vi uma árvore extática coberta de lâmpadas finíssimas. Aqui é negro ou é branco e eu vou formando o sopro obscuro, o tapete que enfuno com a minha respiração entrecortada. Quero retratar-te a terra abrasada, dar-te o espelho do instante luminoso, prolongá-lo nas sequências do teu amplo olhar. É toda a terra viva que eu quero despertar na tua língua e nos teus músculos. Tropeço em membros duros e ásperos, em materiais macios e falsos, em espelhos que me aprisionam. Quero abrir-te a vasta clareira onde os objectos brilham com as suas massas sólidas e as suas nítidas e fascinantes presenças, quero rasgar-te as avenidas do espaço, o grande canto do olhar oferecido ao mundo, a áspera e triunfante materialidade da primavera verdadeira.
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