Escritas

Foi No Horror Que Acordei

António Ramos Rosa Ano: 5740
Foi no horror que acordei
e o meu rosto de lava
perguntava porquê.

Consumido no ventre,
cheio de sangue esquecido,
perguntava porquê.

Ninguém ouvia o grito
nesta cara de terra.
Um bicho silencioso,
o meu nome e uma pedra.

E eu queria a harmonia.
O sol no centro. E a lágrima
era dura e morria.

E a terra me levava
para dentro da terra.
No silêncio da terra
uma árvore respirava.

Eu quero regressar
à essencial frescura.
Eu quero renascer
na morte completa.

Eis-me um homem
de horror, silêncio, sol.
Eis um homem de cal.

Ninguém me queira ver
na minha câmara clara.
(Aí sou negro e puro.)

Com as portas abertas
eu sou o mar que entra.
Mas sem esquecer o sangue,
eu escuto e sei e espero.
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