Onde se põe na lua as mágoas íntimas
Edmir Domingues
Quando as asas do espanto, desfolhadas
sobre os muros do sono e do silĂȘncio
foscas de tanto musgo que as invade
imergirem das pétalas do tempo,
noite, profunda e vasta como o sono,
como a névoa do chão, vasta e profunda,
se alongue sobre a prata dessas ondas
que guardam nossa fronte e nosso mundo.
E os sentimentos mudos, no silĂȘncio,
tornando para o frĂȘmito das salas,
sejam novos por fim, quando os idĂȘnticos
forem mortos da tanta antiguidade.
Noite de vozes roucas, precipĂcios
disfarçados no chão que não se espera,
onde deverĂĄ haver leve carĂcia
e mĂŁos de carne em vez de mĂŁos de pedra.
A luz resvala e Ă© pouca, das esquinas
vem um vento sem cores e sem ritmos,
o junco nos espera e nĂłs nĂŁo vamos
quando nada nos prende Ă nossa cama.
Das nossas mĂŁos, inermes da procura,
o sentido do tempo se desprende,
das viagens nĂŁo viajadas por descuido
vĂȘm tĂmidos fantasmas nesse vento,
e em tudo noite, e vasta e sem limite,
sem piscina e sem Lua e sem cantiga,
que o sentido do tempo se desprende
quando faltam sussurro e confidĂȘncia.
Quando fosse vedado dizer Lua
nĂłs dirĂamos Lua, com veemĂȘncia,
que em mundo de aparĂȘncia a face pura
(nos lagos em que dorme o nosso sangue)
Lua serĂĄ na treva, sobre as ĂĄguas,
o refĂșgio do parco pensamento,
cansado da suposta eternidade
que nĂŁo resiste ao sopro inconsistente.
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