Escritas

Saltimbancos

Edmir Domingues
Seremos saltimbancos nesta noite
que é preciso que alguém envergue o traje
das pĂșrpuras e guizos, no vazio.

Todo silĂȘncio Ă© triste. E a madrugada
que estĂĄ sendo construĂ­da neste instante
nĂŁo deve ter nos passos, quando venha,
senĂŁo um canto exato como um rito.
Se cada madrugada que rebenta
Ă© produto de um reino de trabalho
que além palpita, e nós o não sabemos,
pois nascemos de noite mal nascidos
de cérebro e sentidos amputados. 

As palavras nos negam. 0 cristal
dorme na rocha e nasce como rosa
enquanto a flor que nasce da palavra
na prĂłpria inconsistĂȘncia se desata.
Por isso o reino Ă© nada, e os saltimbancos
valem mais do que o rei e os sacerdotes,
se eles sĂŁo, no que dizem, no que pregam,
mais verdadeiros posto que mais falsos.

Dos ditos que diremos saltimbancos
claros ou nĂŁo que sejam se conclua
que os paĂ­ses da infĂąncia sĂŁo distantes
mas Ășnicos na altura e na verdade.
Na sua neve dorme a consistĂȘncia
dos anjos e das pétalas noturnas
que nenhuma mulher nos trouxe nunca
por mais que dela o vento nos falasse.

NĂŁo saberĂŁo, por certo, os da assistĂȘncia,
que a verdade só vive nas comédias
as quais palpitam sempre como sangue.
EntĂŁo nĂłs construiremos um silĂȘncio.
Se outra coisa nĂŁo foram as palavras
faladas até hoje, na constùncia
que se permite aos tempos provisĂłrios,
sob as sombras e a luz, senĂŁo silĂȘncio.

Seremos saltimbancos, envergando
as pĂșrpuras e os guizos, no vazio.