Escritas

Soneto 2

Nuno Júdice
Uns lábios que servem a erva azeda,
uma voz gritando "que escândalo";
a pele azul como uma lua bêbeda,
os longos cabelos cheirando a sândalo.

Branda a aparição na soleira da porta,
luz ácida na madrugada de hotel.
Um vago "amo-te" na entoação morta,
um poeta anacrónico a ler o "Fel".

Um entreter de dedos na colheita do lírio,
uma cama desfeita na ausência da alma.
Um incêndio de estrelas num charco de empíreo,

um coração solitário ansiando a calma.
Sóis caindo, cantos de ave, uivo de valquíria:
linguagem de amantes - suspiros, calão e gíria.



Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 51| Na regra do jogo, 1982
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