Escritas

Arte poética com melancolia

Nuno Júdice Ano: 1963

Preocupam-me ainda as coisas do passado. Escrevo

como se o poema fosse uma realidade, ou dele nascessem

as folhas da vida, com o verde esplêndido de uma súbita

primavera. Sobreponho ao mundo a linguagem; tiro

palavras de dentro do que penso e do que faço, como

se elas pudessem viver aí, peixes verbais no

aquário do ser. É verdade que as palavras não nascem

da terra, nem trazem consigo o peso da matéria;

quando muito, descem ao nível dos sentimentos, bebem

o mesmo sangue com que se faz viver as emoções,

e servem de alimento a outros que as lêem como se, nelas,

estivesse toda a verdade do mundo. Vejo-as caírem-me

das mãos como areia; tento apanhar esses restos de tempo,

de vida que se perdeu numa esquina de quem fomos; e

vou atrás deles, entrando nesse charco de fundos movediços

a que se dá o nome de memória. Será isso a poesia? É

então que surges: o teu corpo, que se confunde com o das

palavras que te descrevem, hesita numa das entradas

do verso. Puxo-te para o átrio da estrofe; digo o teu nome

com a voz baixa do medo; e apenas ouço o vento que empurra

portas e janelas, sílabas e frases, por entre as imagens

inúteis que me separaram de ti.


Nuno Júdice, in "Teoria geral do sentimento", pág. 9 | Quetzal Editores, 1999

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Comentários (2)

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Diva Deli
Diva Deli
2020-05-18

adorei muito bom

SergioRicardo
SergioRicardo
2017-09-27

Está esta agora a integrar meu paideuma. Para que eu aprenda, quem sabe, alguma coisa de sentimentos, quando transpostos para ideias.