Escritas

Cantos, sois sombras da minha alma. Todos

Fernando Pessoa Ano: 602
Cantos, sois sombras da minha alma. Todos
Sois ilusões; minha alma canta em vós
Pedindo esse descanso que não tem.
Fugir de mim não posso.

                VOZ LÍMPIDA:

Venho d'além das estrelas,
Sou mais bela do que elas,
Cantar-te, Fausto,
Canções mais tristes que o mundo,
Cheias dum vagar profundo,
Té sorrir teu coração
Exausto.
Esta minha melodia
Fará abrir, como dia
No seu raiar,
Teu coração entornando
O seu fel antigo e brando
Como uma flor[?] e a ilusão
Voltar.

                OUTRA:

Eu chorarei sobre ti
Lágrimas de redenção.
Os meus cabelos compridos
Em que tantos envolvi
Tua face envolverão.

Nunca mais tu sentirás
Dentro em ti a sensação
De desolada desgraça;
És meu e comigo virás
Para a terra da ilusão.

No meu seio de luar
Ganharás como um perdão
Por tanta mágoa. Teus olhos
Dormirão, e ao acordar
Outra vez se cerrarão,
        Ao sono te voltarão.

(Fausto continua dormindo. A luz da lâmpada esvai-se lentamente e apaga-se. Noite e silêncio.)
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