Profundamente

Manuel Bandeira
Manuel Bandeira
1 min min de leitura 1930 Libertinagem
Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.
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Comentários (5)

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2026-01-04

Fase poética adulta de Manuel Bandeira. Belo, como por vezes...

José Martins
José Martins
2025-06-30

Vivi um pouco dessa poesia, meu tio Teotônio dorme profundamente, a gritaria dos meninos calaram e meu pai continua comigo em seu profundo sono, ele me amava.

2025-06-06

Está conforme publicado pelo autor. Se leu versão maior, essa é que está errada.

martapfcaldeira@gmail.com
martapfcaldeira@gmail.com
2025-06-05

Texto para imprimir martapfcaldeira@gmail.com

Gian Santos
Gian Santos
2024-07-17

Tem um livro da minha escola que tem esse poema no livro