Escritas

Os Sapos

Manuel Bandeira Ano: 1380
Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.
Em ronco que aterra,

Berra o sapo-boi:
— “Meu pai foi à guerra!”
— “Não foi!” — “Foi!” — “Não foil!?.

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: — “Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.

O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinquenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A formas a forma.

Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia
Mas há artes poéticas...”

Urra o sapo-boi:
— “Meu pai foi rei” — “Foi!”
— “Não foi!” — “Foi” —*“Não foi!”.

Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
— “A grande arte é como
Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo.”

Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas:
— “Sei!” — “Não sabe!” — “Sabel”.

Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Verte a sombra imensa;

Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é

Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo cururu
Da beira do rio...

1918
89 875 Visualizações

Comentários (17)

Iniciar sessão ToPostComment
All
All
2025-03-01

Eu acho incrível a forma como os modernistas conseguiam, ao mesmo tempo que satirizavam, retratar a sociedade brasileira.

All
All
2025-03-01

Isso é uma crítica ao academicismo e a forma como os escritores parnasianistas retratavam a realidade. Pode-se dizer também que era uma crítica à sociedade - de maneira mais ampla - que era hipócrita. A primeira fase do Modernismo era o momento de ruptura e quebra de tabus, por isso que se trata de uma crítica mais geral, @prih

Caique Nascimento de Matos
Caique Nascimento de Matos
2024-06-03

Bastante interessante

Olaf
Olaf
2021-05-24

Que bonito

Jeniffer
Jeniffer
2021-05-24

Amei. Muito bom