Autorretrato tal qual sentido
Miron Białoszewski
Eles me encaram
então é provável que tenha uma cara.
De todas as caras que conheço,
é a de que menos me lembro, mesmo.
É frequente que minhas mãos
vivam de mim em completa separação.
Deveria então contá-las como minhas?
Onde está o que me limita?
Há um matagal em mim
de movimentos e meia-vida.
Porém sempre formiga-me
adentro a existência
cheia ou meio-cheia.
Carrego por mim mesmo
um lugar que chamo de meu.
Quando eu o perco,
isso quer dizer que eu não sou.
Eu não sou,
então não o descreio.
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