Escritas

Monangamba

António Jacinto
Naquela roça que não tem chuva
é o suor do meu rosto que rega as plantações;

Naquela roça grande tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva.

O café vai ser torrado,
pisado, torturado,
vai ficar negro, negro da cor do contratado!

Negro da cor do contratado!

Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:

Quem se levanta cedo? quem vai à tonga?
Quem trás pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de déndén?
Quem capina e em paga recebe desdém
fubá podre, peixe podre,
panos ruins, cinqüenta angolares
porrada se refilares?

Quem?

Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer
— Quem?

Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?

Quem faz o branco prosperar,
ter a barriga grande — ter dinheiro?
— Quem?

E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:
— Monangambéée...

Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
Deixem-me beber maruvo, maruvo
e esquecer diluído nas minhas bebedeiras
— Monangambéée...
15 041 Visualizações

Comentários (5)

Iniciar sessão ToPostComment
António Jacinto
António Jacinto
2024-05-28

Quero o sujeito poético do poema monangamba?

Isaac Alfredo
Isaac Alfredo
2022-04-02

Poema muito profundo, retrata a dor do escravo trabalhar para o outro, neste caso o branco prosperar.

Sanito
Sanito
2021-10-15

Isso foi fantastico

Arlindo
Arlindo
2020-05-12

Peco ajuda para fazer analise critica interna e externa deste poema: estrutura, tematica e corrente literaria, ...

2017-01-29

Gostei imeso do poema