O CÃO (Testemunha ou vítima?)
O CÃO
(Testemunha ou vítima?)
A rede movia-se mórbida
perante a tarde naquela varanda,
mal notava-se o olhar fixo daquela senhora,
na varanda onde só havia a rede
-uma cena fora de órbita
onde o vazia estendia as horas.
As cordas rangiam regendo a tarde,
ela arriscava-se num suspiro
como se anunciando um fim,
e eu, de expresão, vazia e reta,
sentia a concreta certeza em mim.
Disfarçou,em vão, uma dor no rosto
-e a lágrima nela tanto doía,
devido ao desgaste da vida em desgosto!
Mas, vazio, seu olhar permenecia.
Meu pai jazia no tapete
no sétimo dia do seu descanso,
bocejava imune num falsete
perdendo minha mãe frente a tv,
tomava um gole, de vergonha,
no copo ao lado de cerveja,
onde minha mãe esteve um dia,
quando a beijava e havia a alegria
que hoje só o copo enseja.
Um vento frio invadiu
a varanda e o rosto da senhora,
secando-lhe os olhos vermelhos
e, por fim, levando a esperança embora.
Passei a mão em seu cabelo
quando pensei: Mamãe, não chora...
Com ciúmes, o cão latiu
com o focinho sobre as patas.
Ele, que tinha o olhar menos frio,
fingiu ali não doer nada.
A rede foi se de desfazendo,
parando, perante a tarde,
levando o rangido derradeiro,
deixando um quase desespero
em toda aquela imobilidade.
Meu pai, num ronco, anunciava
a mamãe o seu cansaço,
após sua carraspana,
e a chamou ,sem dar os braços,
para uma cama cheia de espaço
e acordar noutra semana.
Sérgio
05/03/93
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