Escritas

Queixa e imprecações dum condenado à morte

Ary dos Santos
Por existir me cegam,
Me estrangulam,
Me julgam,
Me condenam,
Me esfacelam.
Por me sonhar em vez de ser me insultam,
Por nĂŁo dormir me culpam
E me dĂŁo o silĂȘncio por carrasco
E a solidĂŁo por cela.
Por lhes falar, proĂ­bem-me as palavras,
Por lhes doer, censuram-me o desejo
E marcam-me o destino a vergastadas
Pois nĂŁo ousam morder o meu corpo de beijos.

Passo a passo os encontro no caminho
Que os deuses e o sangue me traçaram.
E negando-me, bebem do meu vinho
E roubam um lugar na minha cama
E comem deste pĂŁo que as minhas mĂŁos infames amassaram.
Com angĂșstia e com lama.

Passo a passo os encontro no caminho.
Mas eu sigo sozinho!
Dono dos ventos que me arremessaram,
Senhor dos tempos que me destruĂ­ram,
HerĂłi dos homens que me derrubaram,
Macho das coisas que me possuĂ­ram.

Andando entre eles invento as passadas
Que hĂŁo-de em triunfo conduzir-me Ă  morte
E as horas que sei que me estĂŁo contadas,
Deslumbram-me e correm, sem que isso me importe.

Sou eu que me chamo nas vozes que oiço,
Sou eu quem se ri nos dentes que ranjo,
Sou eu quem me corto a mim mesmo o pescoço,
Sou eu que sou doido, sou eu que sou anjo.

Sou eu que passeio as correntes e as asas
Por sobre as cidades que vou destruindo,
Sou eu o incĂȘndio que lhes devora as casas,
O ladrĂŁo que entra quando estĂŁo dormindo.

Sou eu quem de noite lhes perturba o sono,
Lhes frustra o amor, lhes aperta a garganta.
Sou eu que os enforco numa corda de sonho
Que apodrece e cai mal o sol se levanta.

Sou eu quem de dia lhes cicia o tédio,
O tédio que pensam, que bebem e comem,
O tédio de serem sem nenhum remédio
A perfeita imagem do que for um homem.

Sou eu que partindo aos poucos lhes deixo
Uma herança de pragas e animais nocivos.
Sou eu que morrendo lhes segredo o horror
de serem inĂșteis e ficarem vivos.