Escritas

Balada da neve

Augusto Gil
Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
- Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança...

E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
- e cai no meu coração.

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Comentários (39)

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Andre Pita Gros
Andre Pita Gros
2026-02-11

Lindo de tristeza.

Vitor Silva
Vitor Silva
2026-01-31

Verdade

Vitor Silva
Vitor Silva
2026-01-31

Eternamente lindo e profundo

Tiina Pelttari
Tiina Pelttari
2026-01-23

Mas as criancas, Senhor! Porque padecem assim?! Os velhotes decidem, e as criancas padecem...

ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-10-16

Muito lindo... esta declaração de dor de um poeta... em leveza de alma . vendo cair a neve nos telhados e nas ruas , onde caminham homens , mulheres e crianças. deixando marcas de seus pequeninos pés , pelos seus andares doloridos nos frios de uma branca neve. Ademir.