Escritas

Mãe

Miguel Torga
S. Martinho de Anta, 1 de Junho

Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti - não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto - sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!

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Comentários (8)

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Rogerio barbsa
Rogerio barbsa
2023-06-10

Edith Florbela, hoje minha mae faria 103 anos, Infelizmente « partiu aos 25, fiquei orfa,,,<br />

lU. mariah
lU. mariah
2022-06-15

Sempre que o leio Recorda me o momento da partida da minha mãe. As lágrimas NUNCA falham, pois a Saudade permanece. LU<br />

Edite Cecília Rodrigues
Edite Cecília Rodrigues
2017-05-07

Imortal! Adoro a escrita de Miguel Torga!

José Luís
José Luís
2016-02-21

Mãe só morre quando morrremos.

Veraiz Souza - Poetisa da SOLL
Veraiz Souza - Poetisa da SOLL
2015-11-22

Triste, mas lindo....Ainda no leito de morte a mãe deixa saudade....Que ser é este? Que dádiva é esta?