Escritas

Devia morrer-se de outra maneira

José Gomes Ferreira
Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...
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Comentários (6)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-09-05

Bem tenho a impressão que este grande poeta Português está com toda a razão....em nossa morte nos transformarmos em nuvens ou em fumo, sendo levados em partes por ventos de lábios muitos azuis. ( que é uma beleza de cor )Ademir

Joao Jesus
Joao Jesus
2023-06-08

Poema bruto. Lindo. Obrigado

Letícia Uqueio
Letícia Uqueio
2022-08-04

Eu amo esse poema

João Miguel Rodrigues
João Miguel Rodrigues
2016-01-20

Devia mesmo morrer-se de outra maneira...

coco
coco
2015-01-22

-.-