Escritas

Ela canta, pobre ceifeira,

Fernando Pessoa Ano: 607
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!
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leandra
leandra
2023-09-26

Ela canta, pobre ceifeira,<br /><br />Julgando-se feliz talvez;<br /><br />Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia<br /><br />De alegre e anónima viuvez,<br /><br />Ondula como um canto de ave<br /><br />No ar limpo como um limiar,<br /><br />E há curvas no enredo suave<br /><br />Do som que ela tem a cantar.<br /><br />Ouvi-la alegra e entristece,<br /><br />Na sua voz há o campo e a lida,<br /><br />E canta como se tivesse<br /><br />Mais razões para cantar que a vida.<br /><br />Ah, canta, canta sem razão!<br /><br />O que em mim sente está pensando.<br /><br />Derrama no meu coração<br /><br />A tua incerta voz ondeando!<br /><br />Ah, poder ser tu, sendo eu!<br /><br />Ter a tua alegre inconsciência,<br /><br />E a consciência disso! Ó céu!<br /><br />Ó campo! Ó canção! A ciência<br /><br />Pesa tanto e a vida é tão breve!<br /><br />Entrai por mim dentro! Tornai<br /><br />Minha alma a vossa sombra leve!<br /><br />Depois, levando-me, passai!