Escritas

Há-de flutuar uma cidade

Al Berto
há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade
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Comentários (2)

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DanielLubazim
DanielLubazim
2026-01-13

Este poema faz parte da leitura em CD, com música de Rodrigo Leão (1997). A voz de Al Berto e o poema em si mostram muita força poética. Vale a pena recuperar esse CD, que conta, além do mais, com poemas lidos de Herberto Helder, Luiza Neto Jorge e Mário de Cesariny.

Carlos
Carlos
2015-06-08

sensacional