Escritas

Profissão de Fé

Olavo Bilac
Le poete est ciseleur,
Le ciseleur est poete.
VICTOR HUGO


NĂŁo quero o Zeus Capitolino,
HercĂșleo e belo,
Talhar no mĂĄrmore divino
Com o camartelo.

(...)

Invejo o ourives quando escrevo:
Imito o amor
Com que ele, em ouro, o alto relevo
Faz de uma flor.

(...)

Quero que a estrofe cristalina,
Dobrada ao jeito
Do ourives, saia da oficina
Sem um defeito:

(...)

Porque o escrever — tanta perícia,
Tanta requer,
Que ofĂ­cio tal... nem hĂĄ notĂ­cia
De outro qualquer.

Assim procedo. Minha pena
Segue esta norma,
Por te servir, Deusa serena,
Serena Forma!

Deusa! A onda vil, que se avoluma
De um torvo mar,
Deixa-a crescer; e o lodo e a espuma
Deixa-a rolar!

(...)

NĂŁo morrerĂĄs, Deusa sublime!
Do trono egrégio
AssistirĂĄs intacta ao crime
Do sacrilégio.

E, se morreres porventura,
Possa eu morrer
Contigo, e a mesma noite escura
Nos envolver!

(...)

Vive! que eu viverei servindo
Teu culto, e, obscuro,
Tuas custĂłdias esculpindo
No ouro mais puro.

Celebrarei o teu ofĂ­cio
No altar: porém,
Se inda Ă© pequeno o sacrifĂ­cio,
Morra eu também!

Caia eu também, sem esperança,
Porém tranquilo,
Inda, ao cair, vibrando a lança,
Em prol do Estilo!


Publicado no livro Poesias, 1884/1887 (1888).

In: BILAC, Olavo. Poesias. PosfĂĄcio R. MagalhĂŁes JĂșnior. Rio de Janeiro: Ediouro, 1978

NOTA: Estilização de imagens do poema "L'Art", do livro ÉMAUX ET CAMMÉES (1852), de ThĂ©ophile Gautier. Observe a tradução desse poema, por Onestaldo de Pennafort, no livro ESPELHO D'ÁGUA (1931