Escritas

Fantástica

Alberto de Oliveira
Erguido em negro mármor luzidio,
Portas fechadas, num mistério enorme,
Numa terra de reis, mudo e sombrio,
Sono de lendas um palácio dorme.

Torvo, imoto em seu leito, um rio o cinge,
E, à luz dos plenilúnios argentados,
Vê-se em bronze uma antiga e bronca esfinge,
E lamentam-se arbustos encantados.

Dentro, assombro e mudez! quedas figuras
De reis e de rainhas; penduradas
Pelo muro panóplias, armaduras,
Dardos, elmos, punhais, piques, espadas.

E inda ornada de gemas e vestida
De tiros de matiz de ardentes cores,
Uma bela princesa está sem vida
Sobre um toro fantástico de flores.

Traz o colo estrelado de diamantes,
Colo mais claro do que a espuma jônia.
E rolam-lhe os cabelos abundantes
Sobre peles nevadas de Issedônia.

Entre o frio esplendor dos artefactos,
Em seu régio vestíbulo de assombros.
Há uma guarda de anões estupefactos,
Com trombetas de ébano nos ombros.

E o silêncio por tudo! nem de um passo
Dão sinal os extensos corredores;
Só a lua, alta noite, um raio baço
Põe da morta no tálamo de flores.


Publicado no livro Ramo de árvore (1922).

In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.1. (Fluminense
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Comentários (1)

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João Galuzio
João Galuzio
2022-09-04

Eu era um 16 anos adolescente quando estudante, no ensino médio ou, naquele tempo, segundo grau, tive por trabalho, analisar e apresentar este poema em sala. <br /><br />Vão-se 47 anos desde aquele dia, mas jamais pude esquecer os 'plenilúnios argentados'.<br /><br />Hoje compartilhava essa experiência com uma amiga e pude, pela primeira vez, encontrar nesta página virtual, este texto impressionte e expressivo.<br /><br />Supreeendente a ode que descreve o túmulo de sua amada. Recomendo sua interpretação. Vale uma canção. Tribos de emos, góticos, punks e rappers haverão de musicar tal poesia.