Escritas

Santos

Ribeiro Couto
Sobre a cidade a tarde cai de manso.
Começam a acender-se luzes mortiças
Nos longos mastros dos transatlânticos ancorados.
Como é longo o cais envolvendo a cidade inteira
Com os chatos armazéns e os guindastes em fila!
Como é longo o cais junto às águas oleosas!

Presos à amurada baloiçam botes vazios.
Vêm conversas confusas de marinheiros
Dentre vagões atulhados de carvão de pedra.

Nossa Senhora do Monte Serrat protege o comércio.
A igrejinha branca lá está, no alto do morro,
Abençoando a fadiga dos homens suarentos.

Junto a estas águas oleosas nasci.
Nasci para sonhar o bem difícil das viagens,
O encanto triste dos amanhãs do exílio.
O apito imenso das sereias, nas partidas,
Foi a música maravilhosa dos meus ouvidos de criança.

Ó transatlânticos com bandeiras enfeitadas,
Não é verdade que viestes para levar-me?


Publicado no livro Um Homem na Multidão (1926).

In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.13
1 276 Visualizações

Comentários (0)

Iniciar sessão ToPostComment