Escritas

Os Desaparecidos

Affonso Romano de Sant'Anna
De repente, naqueles dias, começaram
a desaparecer pessoas, estranhamente.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.

Ia-se colher a flor oferta
e se esvanecia.
Eclipsava-se entre um endereço e outro
ou no tĂĄxi que se ia.
Culpado ou nĂŁo, sumia-se
ao regressar do escritĂłrio ou da orgia.
Entre um trago de conhaque
e um aceno de mĂŁo, o bebedor sumia.
Evaporava o pai
ao encontro da filha que nĂŁo via.
MĂŁes segurando filhos e compras,
gestantes com tricots ou grupos de estudantes
desapareciam.
Desapareciam amantes em pleno beijo
e médicos em meio à cirurgia.
MecĂąnicos se diluĂ­am
— mal ligavam o torno do dia.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.

Desaparecia-se a olhos vistos
e nĂŁo era miopia. Desaparecia-se
até à primeira vista. Bastava
que alguém visse um desaparecido
e o desaparecido desaparecia.
Desaparecia o mais conspĂ­cuo
e o mais obscuro sumia.
Até deputados e presidentes evanesciam.
Sacerdotes, igualmente, levitando
iam, aerefeitos, constatar no além
como os pecadores partiam.

Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Os atores no palco
entre um gesto e outro, e os da platéia
enquanto riam.
NĂŁo, nĂŁo era fĂĄcil
ser poeta naqueles dias.
Porque os poetas, sobretudo
— desapareciam.


Publicado no livro PolĂ­tica e paixĂŁo (1980).

In: SANT'ANNA, Affonso Romano de. A poesia possĂ­vel. Rio de Janeiro: Rocco, 198