Escritas

Que País É Este?

Affonso Romano de Sant'Anna
1

Uma coisa é um país,
outra um ajuntamento.

Uma coisa é um país,
outra um regimento.

Uma coisa é um país,
outra o confinamento.

Mas já soube datas, guerras, estátuas
usei caderno "Avante"
— e desfilei de tênis para o ditador.
Vinha de um "berço esplêndido" para um "futuro radioso"
e éramos maiores em tudo
— discursando rios e pretensão.

Uma coisa é um país,
outra um fingimento.

Uma coisa é um país,
outra um monumento.

Uma coisa é um país,
outra o aviltamento.

(...)

2

Há 500 anos caçamos índios e operários,
há 500 anos queimamos árvores e hereges,
há 500 anos estupramos livros e mulheres,
há 500 anos sugamos negras e aluguéis.

Há 500 anos dizemos:
que o futuro a Deus pertence,
que Deus nasceu na Bahia,
que São Jorge é que é guerreiro,
que do amanhã ninguém sabe,
que conosco ninguém pode,
que quem não pode sacode.

Há 500 anos somos pretos de alma branca,
não somos nada violentos,
quem espera sempre alcança
e quem não chora não mama
ou quem tem padrinho vivo
não morre nunca pagão.

Há 500 anos propalamos:
este é o país do futuro,
antes tarde do que nunca,
mais vale quem Deus ajuda
e a Europa ainda se curva.

Há 500 anos
somos raposas verdes
colhendo uvas com os olhos,

semeamos promessa e vento
com tempestades na boca,

sonhamos a paz da Suécia
com suíças militares,

vendemos siris na estrada
e papagaios em Haia,

senzalamos casas-grandes
e sobradamos mocambos,

bebemos cachaça e brahma
joaquim silvério e derrama,

a polícia nos dispersa
e o futebol nos conclama,

cantamos salve-rainhas
e salve-se quem puder,

pois Jesus Cristo nos mata
num carnaval de mulatas.

(...)


Publicado no livro Que país é este? e outros poemas (1980).

In: SANT'ANNA, Affonso Romano de. A poesia possível. Rio de Janeiro: Rocco, 198
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Comentários (4)

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Sérgio Moreira
Sérgio Moreira
2022-01-10

Que país é esse que ainda não deu uma cadeira na ABL para Afonso Romano de Santana?

Maurílio Allen
Maurílio Allen
2017-06-06

Esse poema faz parte da vanguarda contemporânea chamada Poesia Social, que tinha como essência essa forma de fazer poesias engajadas, como denúncia das mazelas sociais e, especialmente, políticas. O objeto da Poesia Social é o próprio conteúdo, o que a opõe à vanguarda do Concretismo. Poesia completamente atual. Obrigado, Affonso Romano de Sant'Anna.

Zilá Bernd
Zilá Bernd
2015-12-10

Hora de lembrarmos desse poema nesse Brasil estarrecedor de hoje. obrigad aAffonso por tua lucidez...

Antonio Galdino Alves de Souza
Antonio Galdino Alves de Souza
2014-08-15

E por 500 anos ainda há de se perguntar; Que país é Este? Valeu pela mensagem.