amor
yuri petrilli
e deste amor,
deste tão desamparado amor
que em ti acolhes
a cada noite
quando a ti próprio te recolhes
em tua íntima resistência,
deste amor que te convoca palavras
sem que haja palavras,
que te fere com gestos
sem que haja gestos,
que com inesperado vigor surge em uma distinta
dimensão da verdade,
deste amor,
que se despetala lentamente
em seu estômago,
enquanto os ponteiros desfiam as horas
e as areias solapam as pegadas,
deste amor,
cujos ramos crescem
até te escaparem pela garganta
em doce sufoco,
que evoca saudades
e vontades indefinidas,
que se dispersa nos dias
como se fosse uma cor nunca antes vista,
e ressuscita um horizonte esquecido
e reabre a antiga ferida
para beijá-la;
deste amor que é só seu, e que mal sabes amar,
deste amor que mal suportas sentir,
deste amor...
deste amor ninguém saberá.
o tentarás contar.
assim será o teu decurso.
não o contarás.
como o contarias?
ninguém saberá dos sonhos,
dos cenários e das circunstâncias
que em ti viveram e viverão,
teus íntimos vulcões.
nem desta vontade súbita de abraçar as criaturas,
desta consciência de que o tempo passa
por sobre todos os lugares onde os viventes combatem
as mais perdidas causas,
ou deste coração que se agarra aos fios cortados
e tece emendas imaginárias.
não.
ninguém saberá.
nenhuma eternidade,
nenhum legado
ou marca.
nem mesmo
ela.
em ti
ele todo rugirá a cada instante,
solitário, infinito,
e em teus olhos se sublimará
quando enfim adormeceres
– porém jamais suavemente.
deste amor,
deste tão desamparado humano amor
que te aperta,
e que te seguirá apertando
enquanto humano for teu seio,
e deste aperto
que te concede outros mundos e segredos,
e mãos, e lábios, e coisas impossíveis,
deste amor
somente algo terás
para colher em sonho:
a agridoce sensação
de que seu coração
não cabe na vida.
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