Escritas

Rostos Conhecidos

Fabiano F. Martins
Com o passar incessante e inexorável do tempo, há uma série de pequenos hábitos e ocasiões que nos fazem perceber que transicionamos da adolescência para a vida adulta. Se formar no ensino básico, tirar carteira de habilitação, votar pela primeira vez de forma obrigatória. Esses são alguns dos exemplos de obrigações sociais que nos indicam que estamos entrando oficialmente na parte mais chata da vida (se é que alguma parte possa ser considerada legal).

Aos poucos, nossas gavetas vão se enchendo de boletos pagos (que sempre guardamos, mas nunca sabemos o porquê) e de remédios. Analgésicos para dor de cabeça, para dor de barriga, vitaminas e antialérgicos para resfriado e tantas outras drogas destinadas a tratar uma série de outras perturbações corporais que antes nem sabíamos que existia. Saber uma grande quantidade de nomes de remédios, inclusive, é um claro sintoma de “adultisse aguda”, por assim dizer.

Mas de uns tempos para cá tenho percebido que há um outro sinal bastante claro e incômodo que me fez perceber que não são só os outros que ficam mais velhos. Me dei conta de que, aos poucos, o cemitério municipal de minha cidade natal está sendo povoado por nomes conhecidos. Com o galope do tempo, as lápides passaram a apresentar fotos de rostos que um dia eu os vi falando, rindo e também chorando.

Desde que me recordo, meu pai tem o hábito de visitar o cemitério municipal da cidade onde nasci (e onde minha família ainda mora). Sempre achei esse hábito um pouco estranho, pois meu pai segue a doutrina religiosa do Espiritismo e, pelo pouco que conheço dela, eu acreditava que os espíritas não teriam uma ligação muito forte com cemitérios, já que a forma com a qual eles encaram a morte é um tanto quanto diferente da forma com a qual a maior parte da sociedade o faz. Na minha interpretação, alguém que encara a vida terrena apenas como um estágio evolutivo do espírito não teria motivos para visitar um local destinado a depositar os restos mortais de corpos que não servem mais para nada.

Mas o fato é que meu pai, independentemente de seus valores religiosos (e da minha interpretação equivocada deles) sempre visitou aquele lugar, quase todos os finais de semana. Normalmente ele o faz aos domingos de manhã e em muitas dessas visitas eu pude acompanha-lo em seu hobby inusitado.

E essas visitas eram para mim como um passeio a um museu de história, acompanhado de um guia muito bem preparado, pois a cada lápide, meu pai parecia ter alguma informação sobre a(s) pessoa(s) que estava(m) enterrada(s) ali. Isso porque meu pai já assistira muitos amigos, parentes e conhecidos sendo definitivamente tragados pelo solo daquele terreno imenso.

Meu pai, no auge de seus quase sessenta anos, já se despediu de muita gente na vida. E hoje percebo que aos poucos o meu número de despedidas também começa a aumentar. Aquele lugar que antes era repleto de túmulos com rostos e nomes sem nenhum significado para mim, hoje já possui várias “moradias” (des)habitadas por pessoas que fizeram parte de minha vida um dia. Minha querida e saudosa avó materna, que nos deixou em 2016. Amigos que se foram em trágicos acidentes de trânsito ou por conta de um infarto fulminante no meio da madrugada. Pessoas que não me foram muito próximas, mas que eu pude, em algum momento de minha vida, vê-las caminhando, trabalhando e vivendo pelas ruas de Rancharia. Pessoas que antes estavam e agora não estão.

Assim como um álbum de fotografias, o cemitério me mostra agora recordações de um tempo que eu presenciei. E isso se tornou meu sinal mais lúcido de meu envelhecimento.
Atualmente não moro mais em Rancharia e meu pai agora faz seus tours acompanhado de outra visitante. Desde 2016 minha mãe tem frequentado o cemitério semanalmente para cuidar do túmulo de minha avó. Mas mesmo sem frequentar esse lugar, a lembrança daqueles que estão enterrados ali me faz pensar um pouco nas coisas que já vivi e no quanto ainda espero viver antes de me findar na lembrança de um rosto conhecido para outra pessoa.    
153 Visualizações

Comentários (0)

Iniciar sessão ToPostComment