Escritas

Fragmento do Cabeleira

Sílvio Romero
(Pernambuco)

— Fecha a porta, gente,
Cabeleira aí vem,
Matando mulheres,
Meninos também.
Corram, minha gente,
Cabeleira aí vem,
Ele não vem só,
Vem seu pai também.
"Meu pai me pediu
Por sua benção
Que eu não fosse mole,
Fosse valentão.
Lá na minha terra,
Lá em Santo Antão,

Encontrei um homem
Feito um guaribão,
Pus-lhe o bacamarte,
Foi pá, pi, no chão.
Minha mãe me deu
Contas pra rezar,
Quem tiver seus filhos
Saiba-os ensinar,
Veja o Cabeleira
Que vai a enforcar.
........................
Meu pai me chamou:
— Zé Gomes, vem cá;
Como tens passado

No canavial?
"Mortinho de fome.
Sequinho de sede,
Só me sustentava
Em caninhas verdes,
— Vem cá, José Gomes,
Anda-me contar

Como te prenderam
No canavial?
"Eu me vi cercado.
De cabos, tenentes,
Cada pé de cana
Era um pé de gente."


In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.94-95. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
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