Bruxinha Baiana
Bruno de Menezes
(Para as minhas filhas
Marília e Lenôra)
Tenho uma bruxinha de carne de pano
que usa cabelo feito de retrós.
Parece que foi noutro tempo mucama,
porque nós fazemos
com a pobre bruxinha
o que não se faz com todo o cristão.
O mais engraçado
é que ela parece ter alma ter vida.
Seu corpo de pano
em certos instantes
tem toda a expressão dos nossos movimentos.
Por isso é que eu penso:
— ela foi mucama.
Não chora não grita não olha pra gente
se fica esquecida
num canto no chão.
Sua única roupa é um traje à baiana.
E nós ajeitamos o seu cabeção
e sua sainha de chita florida
que a Carmen Miranda
se visse a bruxinha
iria com ela também batucar.
Nem mesmo boneca sabemos chamá-la.
Não tem qualquer nome
de "estrela" de fama no céu do cinema.
É a nossa "bruxinha" sem outro apelido,
que até os meus manos
em louca peteca
às vezes transformam se querem brincar.
Andando aos boléus
aos troncos da sorte
quem sabe se a nossa bruxinha, coitada,
não é a mucama
que o fado o destino
jogaram no mundo
para andar assim?...
Publicado no livro Batuque: poemas (1939).
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.263-264. (Lendo o Pará, 14
Marília e Lenôra)
Tenho uma bruxinha de carne de pano
que usa cabelo feito de retrós.
Parece que foi noutro tempo mucama,
porque nós fazemos
com a pobre bruxinha
o que não se faz com todo o cristão.
O mais engraçado
é que ela parece ter alma ter vida.
Seu corpo de pano
em certos instantes
tem toda a expressão dos nossos movimentos.
Por isso é que eu penso:
— ela foi mucama.
Não chora não grita não olha pra gente
se fica esquecida
num canto no chão.
Sua única roupa é um traje à baiana.
E nós ajeitamos o seu cabeção
e sua sainha de chita florida
que a Carmen Miranda
se visse a bruxinha
iria com ela também batucar.
Nem mesmo boneca sabemos chamá-la.
Não tem qualquer nome
de "estrela" de fama no céu do cinema.
É a nossa "bruxinha" sem outro apelido,
que até os meus manos
em louca peteca
às vezes transformam se querem brincar.
Andando aos boléus
aos troncos da sorte
quem sabe se a nossa bruxinha, coitada,
não é a mucama
que o fado o destino
jogaram no mundo
para andar assim?...
Publicado no livro Batuque: poemas (1939).
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.263-264. (Lendo o Pará, 14
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