Lembrança de Morrer
Álvares de Azevedo
No more! o never more!
SHELLEY.
Quando em meu peito rebentar-se a fibra
Que o espĂrito enlaça Ă dor vivente,
NĂŁo derramem por mim nem uma lĂĄgrima
Em pĂĄlpebra demente.
E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
NĂŁo quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.
Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro
â Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;
Como o desterro de minh'alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
SĂł levo uma saudade â Ă© desses tempos
Que amorosa ilusĂŁo embelecia.
SĂł levo uma saudade â Ă© dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...
De ti, Ăł minha mĂŁe, pobre coitada
Que por minha tristeza te definhas!
De meu pai... de meus Ășnicos amigos,
Poucos â bem poucos â e que nĂŁo zombavam
Quando, em noite de febre endoudecido,
Minhas pålidas crenças duvidavam.
Se uma lĂĄgrima as pĂĄlpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda
Ă pela virgem que sonhei... que nunca
Aos lĂĄbios me encostou a face linda!
SĂł tu Ă mocidade sonhadora
Do pĂĄlido poeta deste flores...
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.
Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo....
Ă minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!
Descansem o meu leito solitĂĄrio
Na floresta dos homens esquecida,
Ă sombra de uma cruz, e escrevam nelas
â Foi poeta â sonhou â e amou na vida.â
Sombras do vale, noites da montanha
Que minh'alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silĂȘncio derramai-lhe canto!
Mas quando preludia ave d'aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos...
Deixai a lua prantear-me a lousa!
Publicado no livro Poesias de Manuel AntĂŽnio Ălvares de Azevedo (1853). Poema integrante da sĂ©rie Primeira Parte.
In: GRANDES poetas romùnticos do Brasil. Pref. e notas biogr. AntÎnio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
SHELLEY.
Quando em meu peito rebentar-se a fibra
Que o espĂrito enlaça Ă dor vivente,
NĂŁo derramem por mim nem uma lĂĄgrima
Em pĂĄlpebra demente.
E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
NĂŁo quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.
Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro
â Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;
Como o desterro de minh'alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
SĂł levo uma saudade â Ă© desses tempos
Que amorosa ilusĂŁo embelecia.
SĂł levo uma saudade â Ă© dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...
De ti, Ăł minha mĂŁe, pobre coitada
Que por minha tristeza te definhas!
De meu pai... de meus Ășnicos amigos,
Poucos â bem poucos â e que nĂŁo zombavam
Quando, em noite de febre endoudecido,
Minhas pålidas crenças duvidavam.
Se uma lĂĄgrima as pĂĄlpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda
Ă pela virgem que sonhei... que nunca
Aos lĂĄbios me encostou a face linda!
SĂł tu Ă mocidade sonhadora
Do pĂĄlido poeta deste flores...
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.
Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo....
Ă minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!
Descansem o meu leito solitĂĄrio
Na floresta dos homens esquecida,
Ă sombra de uma cruz, e escrevam nelas
â Foi poeta â sonhou â e amou na vida.â
Sombras do vale, noites da montanha
Que minh'alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silĂȘncio derramai-lhe canto!
Mas quando preludia ave d'aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos...
Deixai a lua prantear-me a lousa!
Publicado no livro Poesias de Manuel AntĂŽnio Ălvares de Azevedo (1853). Poema integrante da sĂ©rie Primeira Parte.
In: GRANDES poetas romùnticos do Brasil. Pref. e notas biogr. AntÎnio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
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