Escritas

Cubatão

Afonso Schmidt
Minha terra nĂŁo passa de uma estrada,
um bambual que rumoreja ao vento;
sol de fogo em areia prateada,
deslumbramento e mais deslumbramento.

O chafariz em forma de carranca,
confidente das moças do arrabalde,
despeja a sua gargalhada branca
no bojo de latĂŁo de um velho balde,

Nas portas, parasitas cor de sangue,
um mastro esguio em cada casinhola;
gente tostada que desfolha o mangue,
crianças pĂĄlidas que vĂȘm da escola.

Ao fundo, a Serra. Pinceladas frouxas,
de ouro e tristeza, em fundo azul. Aquelas
manchas que sĂŁo jacatirĂ”es — as roxas,
e aleluias — as manchas amarelas.

A minha terra, quando a vejo, escampa,
cheia de sol e de visÔes amigas,
lembra-me o cromo que enfeitava a tampa
de uma caixa de goma, das antigas...


Publicado no livro Mocidade (1921).

In: SCHMIDT, Afonso. Poesia. Ed. definitiva. SĂŁo Paulo: Ed. Nacional, 194