VIII [Ai dos que vivem, se não fora o sono
O sol, brilhando em pleno espaço, cai
Em cascatas de luz; desce do trono
E beija a terra inquieta, como um pai.
E surge a primavera. O áureo patrono
Da terra é sempre o mesmo sol. Mas ai
Da primavera, se não fora o outono,
Que vem e vai, e volta, e outra vez vai.
Ao níveo luar que vaga nos outeiros
Sucedem sombras. Sempre a lua tem
A escuridão dos sonhos agoureiros.
Tudo vem, tudo vai, do mundo é a sorte...
Só a vida, que se esvai, não mais nos vem.
Mas ai da vida, se não fora a morte!
Publicado no Jornal do Comércio (Juiz de Fora, 23 mar. 1919).
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 334. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
Comentários (1)
VIII<br /><br />Ai dos que vivem, se não fora o sono!<br />O sol, brilhando em pleno espaço, cai<br />Em cascatas de luz; desce do trono<br />E beija a terra inquieta, como um pai.<br /><br /><br />E surge a primavera. O áureo patrono<br />Da terra é sempre o mesmo sol. Mas ai<br />Da primavera, se não fora o outono,<br />Que vem e vai, e volta, e outra vez vai.<br /><br /><br />Ao níveo luar que vaga nos outeiros<br />Sucedem sombras. Sempre a lua tem<br />A escuridão dos sonhos agoureiros.<br /><br /> <br /><br />Tudo vem, tudo vai, do mundo é a sorte…<br />Só a vida, que se esvai, não mais nos vem.<br />Mas ai da vida, se não fora a morte!<br /><br /> <br /><br />GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. [organização Alphonsus de Guimaraens Filho]. Biblioteca luso-brasileira – Série brasileira, 20. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1960.<br /><br /> <br /><br />A leitura do poema de Alphonsus de Guimaraens (1870-1921) revela a caracterização da poesia simbolista como espaço literário não relacionado a questões importantes para o contexto nacional porque<br /><br /><br />ao destacar a alegria primaveril, ignora a situação social e política do país à época.<br /><br /><br /><br />a celebração da imortalidade do indivíduo é uma renúncia à conscientização da vida em sociedade.<br /><br /><br /><br />o autor escolhe não associar sua poesia à sociedade que o cerca ao tratar do amor romântico.<br /><br /><br /><br />exalta a natureza exuberante do país, se afastando de questões sociais.<br /><br /><br /><br />explora centralmente o tema da fugacidade da vida, voltando-se para o indivíduo.<br /><br /><br />
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