Escritas

O Amor

Vladimir Maiakovski
Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zôo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
– Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo,
a mãe,
pelo menos a Terra.


– 1923, tradução de Haroldo de Campos
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Comentários (6)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-08-28

Extraordinário versos de um poeta de origem Russa . este poema liberta todas as amarras de um grande amor para se viver do além de uma morte. e não sejas chorado nem mendigado. ressuscita-me . muito belo.

Helenita Ceita da Silva
Helenita Ceita da Silva
2025-04-26

As palavras são áridas e insuficientes para dimensionar a grandeza e a profundidade desse poema. Vladimir Maiacovski transcende.

José
José
2022-11-10

Maiacovski, A Propósito Disto, 1923<br />Traduzido por Emílio C. Guerra, in Antologia poética, Maiacovski. São Paulo, Editora Max Limonad Ltda., 1987 (1.ª edição: Editora Leitura S.A., 1963)<br />

Ocelia
Ocelia
2022-06-13

Sensacional

Ademar Amâncio
Ademar Amâncio
2022-05-03

Amo.